segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os vinhos do assassino

Marion Peck

Sirvo-me do vinho verde para a comemoração alegre. Livre! Minha mulher está morta! Encontro neste vinho a leveza borbulhante que reclama a situação.
"Vinho é vinho, licor feito com a uva e inventado pelo patriarca Noé". E depois? Depois nada, isto é tudo: “patriarca Noé”...”licor”. Deus preserva este conhecimento muito digestivo, muito explicativo, a quem ama. Idéia ingênua que não dá a noção justa e clara de todos os vinhos, de suas diferentes qualidades, de seus inconvenientes.

O ar era puro e o céu, admirável. Iniciava o verão, com temperatura amena, quando caí morto de amor! O infinito! Não enxergas o infinito? Lá, tás vendo? Onde podemos flutuar com os passáros, borboletas, os filhos da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas. Traiu-me a irresistível atração pelo horrível, olhos vesgos que procuram o infinito em meio ao próprio nariz de carne e osso. Implorei encontrá-la à noite, num restaurante.E veio! Todo mundo é louco ou artista.
Persistente julguei, naquelas pupilas, a tentativa de olhar para dentro de si mesma, para dentro do estômago onde o vinho faz um grande rebuliço e, daí, segue por escadas invisíveis até o cerébro, executando sua dança suprema. Como são grandes os espetáculos do vinho, iluminados pelo sol interior!
A orgia seguiu-se somente nos primeiros tempos, depois passei a fazer parte da vasta multidão sem nome, cujo sono não basta para adormecer os sofrimentos.Maldito era o coração egoísta e insensível desta mulher: “Vinho é vinho!”. E, ainda, quando voltava sem dinheiro, gritava só de me ver à porta. O vinho cria para mim cantos e poemas, e ela quase fez dele a minha mortalha com negros alvoroços e cortejos infernais de espanto.O vinho é como o homem: não se saberá nunca até que ponto podemos estimá-lo ou desprezá-lo, amá-lo ou odiá-lo, nem de quantos atos sublimes ou perversidades monstruosas ele é capaz. Ela era mais cruel com ele do que com nós mesmos: seria mais justo tê-lo tratado como a um igual.

Não sabe ela o que me custa de trabalho e sol sobre os ombros? Nunca vi brilhar a aurora boreal de minhas velhas esperanças. O que gasto com esta mulher, está bem, e com os vinhos... profundos prazeres, quem não os conhece? Quem quer que tenha tido um remorso a aplacar, uma lembrança a evocar, uma dor a esquecer, um castelo na Espanha a construir, todos enfim já o invocaram. Recompensa-me por isto? A ingrata não valoriza o peito de um homem honesto! É o vinho que, com generosidade e alegria, desliza na minha garganta alterada pelo trabalho.O trabalho torna próspero meus dias, e o vinho, felizes meus domingos.

Este crápula aqui jamais, em verão ou inverno, conheceu o amor verdadeiro. É o vinho, e não os frascos do veneno dela, prantos e ruídos de cadeia, que possibilita o reconhecimento de meus estados de espírito: espírito levemente irônico, temperado de indulgência, espírito de solidão com profunda satisfação comigo mesmo, alegria, entusiasmo, tempestade, alegria sarcástica insuportável para mim mesmo, aspiração a sair do eu, objetividade excessiva, fusão de meu ser com a natureza.

A infeliz ousa afrontar-me e à humanidade moderna, bebedores melancólicos, bebedores felizes, todos que buscam no vinho o esquecimento ou a lembrança. São perigosos sim seus encantamentos enervantes. Quero o Borgonha, que tem a impetuosidade séria e o arrebatamento necessários para jogá-la ao poço. Em seguida, a corda, que ela não alcança. Digam-me, do fundo da alma e da consciência, policiais, juízes, agentes penitenciários, legisladores, quem de vocês terá coragem impiedosa de condenar o homem que bebe o gênio? Agora talvez ela me fale com sua alma, o que somente ouvi do vinho: - “Homem, meu bem-amado, quero levar até você, apesar da minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e de esperança".
Muitos dirão que enlouqueci, mas diante dos benefícios, falta-me coragem para contar os danos. Além disso, afirmei que o vinho é como um homem e concordei que seus crimes são iguais as suas virtudes. Posso fazer melhor?
Jesus Cristo vai comigo para o banco dos réus. Apetecia-me, neste caso, o Jurançon, que possui um sabor amargo embriagador, como a essência das idéias profundas.

(narrativa mise en abyme, baseada no Poema O Vinho do Assassino e Os Prazeres e os perigos do vinho- Paraísos Artificiais, de Baudelaire)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Psicopompos

Mark Ryden


A mulher levanta-se no meio da noite e caminha no escuro- o espaço não lhe impõe obstáculos. Organiza uma exposição de arte e preocupa-a o irrisório da produção.Pensa que são seis da manhã, mas ao acender a luz, constata que são duas. Chove.
Vai até a janela e vê algo estranho: Clarice Lispector e Kafka, parados ao portão, abrigados num único guarda-chuva. Corre para abrir a porta, eles entram. Dirigem-se para a mesa, onde estão os materiais de trabalho dela.
Clarice, a recortar, monta um cestinho de páscoa, cheio de franjas picotadas. Kafka começa a pintar numa cartolina uns desenhos meio infantis, mas que depois ficam com um sombreado excepcional.
Alguém bate à porta, é uma menina que se diz chamar Florbela. Veio para ajudá-la também, pá. Logo chega Mário de Sá Carneiro, Gabriel Garcia Márquez, Cortázar.

Márquez executa uma técnica nova com tinta acrílica e colagens de papel. Abastece-os com fotografias, restos de lã, papéis picados, entre tantos outras materiais.
Amanhece quando se despedem.

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Bibliografias

Bibliografia Núcleo de Dramatugia SESI SP

POÉTICA
Aristóteles (há várias traduções possíveis).
A EXPERIÊNCIA VIVA DO TEATRO
Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
Hans-Thies Lehmann - Ed. Cosac & Naify, 2007
O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




Psicologia junguiana
EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989
HILLMAN, James. Estudos de Psicologia arquetípica, RJ, Achiamé, 1981
JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado na Obra de C. G. Jung, SP, Cultrix, 1989
JUNG, Carl Gustav. Obras Completas, Petrópolis, Vozes
JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos, RJ, Nova Fronteira, 1964
JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961
NEUMANN, Erich. História da Origem da Consciência, SP, Cultrix, 1990
SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente, RJ, Alambra, 1981
VON FRANZ, Marie-Louise, C.G.Jung, Seu Mito em Nossa Época, SP, Cultrix, 1992
WHITMONT, Edward C. A Busca do Símbolo, SP, Cultrix, 1994
ZWEIG, Connie, e ABRAMS, Jeremiah.(organizadores). Ao Encontro da Sombra, SP, Cultrix, 1994
HILLMAN, James. O Código do Ser, RJ, Objetiva, 1997
MINDELL, Arnold, O Corpo Onírico, SP, Summus, 1989
NEUMANN, Erich. A Criança, SP, Cultrix, 1991
SAMUELS, Andrew e Colaboradores. Dicionário Crítico de Análise Junguiana, R J, Imago, 1988
SHARP, D. Tipos de personalidade, SP, Cultrix, 1990
VON FRANZ, M. L. & HILLMAN, J. A tipologia de Jung, SP, Cultrix, 1990
BOLEN, Jean Shinoda. A Sincronicidade e o Tao, SP, Cultrix, 1991
CLARKE, J. J. Em Busca de Jung, RJ, Ediouro, 1993
FRANZ, Marie-Louise von. Adivinhação e sincronicidade, SP, Cultrix, 1985
HILLMAN, James. Suicídio e alma, Petrópolis, Vozes, 1993
HILLMAN, James. Uma busca interior em psicologia e religião, SP, Paulinas, 1985
PROGROFF, Ira. Jung, Sincronicidade e destino humano, SP, Cultrix, 1989
Tuiavii. O Papalagui, SP, Marco Zero. 1987
GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978
SANFORD, J. Os Parceiros Invisíveis, SP, Paulus, 1986
STEIN, Robert. Incesto e amor humano, SP, Símbolo, 1978
STEINBVERG, Warren. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana, SP, Cultrix, 1992
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega, Petrópolis, Vozes, 1989
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito, SP, Palas Athena, 1990
FIERZ, Heinrich Karl. Psiquiatria junguiana, SP, Paulus, 1997
HILLMAN, J. O mito da análise, RJ, Paz e Terra, 1984
KERÉNYI, Karl. Os Deuses Gregos/Os Heróis Gregos, SP, Cultrix, 1994
SALAND, N. S. A Personalidade limítrofe, SP, Cultrix, 1989
VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma, SP, Cultrix, 1992
SAMUELS, Andrew. Jung e os Pós-Junguianos, RJ, Imago, 1989
SANFORD, John. Os sonhos e a cura da alma. SP, Paulinas, 1991
WHITMONT, Edward e S. Pereira. Sonhos um portal para a fonte,SP, Summus, 1995
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico, SP, Cortez, 2000
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, SP, Ática, 1995
Brandão, Junito de Souza (1998). Mitologia Grega –– Petrópolis: Ed. Vozes, 1998, vol 2, pp. 113-140.
Byington, Carlos A.B. (2008). Psicologia Simbólica Junguiana – São Paulo: Ed. Linear B, 2008, capítulos 1, 2, 3 e 4.

Real é o que produz efeitos, Carl Jung

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