terça-feira, 30 de junho de 2009

Convite lançamento da Antologia DesAMORdaçados


não sei que grades, que barras, que muros

marion peck

Augusto me fez a proposta de vivermos juntos e felizes. Ele parece uma das figuras de Michelângelo, pernas compridas e quadris e coxas largos. Prometeu abotoar sempre o meu casaquinho e me secar quando saio do banho. Não é o Van Gogh do livro impressionista à venda aqui no brechó. O pintor se agarrava às pequenas coisas da realidade, cores, luminosidades, ligadas a olhos internos, revelando estes céus e paisagens atormentadas. Quando me sento nesta máquina de costura tal qual comedores de batatas, também engendro meus campos de trigo em noites estreladas. Vejo-me ali a tecer fragmentos dum olhar camaleônico. Minha subjetividade se materializa na escolha do pano- cru, de amostra, de boca, de chão, quente, para as mangas, e no corte.
Conversa comigo reconhecido e divertido costureiro. Usa colete e calça azuis da Prússia. Pega-me ao colo de frente pra ele e anda à tartaruga até o carro. Meus pais estão na direção, e nós ficamos na parte de trás. Eu e ele descemos para seguirmos a pé. Minha mãe receia-me nuvem e insiste para que eu vista um mocassim castanho.
Se calhar, aceito.

Rubedo

Paula Rego


Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá pelo orgasmo, a explicação do mundo
Carlos Drummond de Andrade



Uma mulher, vestindo uma curta túnica branca, a cair-lhe no ombro, molda com massas coloridas. Finaliza algo e desmancha. Aborrecida para. Logo o semblante se ilumina e delineia algo novamente. Mais uma vez desfaz e deixa estar a massa confusa. Apanha próximo de si papel cartão e com cola tenaz cria texturas. A peça pronta arremessa longe. Levanta-se descontente. Põe-se a caminhar e a alguns passos vê mãos de homem a trabalhar. Cuidadoso ele arranja argila numa retorta, assentando flores. Dá a ela um punhado do barro vermelho.
Os dois atores saem para o camarim. Outros dois então correm para o palco. Ela tira a túnica, a caminhar nua no espaço que parece um depósito de arte, e ele, a camiseta, desvencilhando-se do cinto. Ela anda até ele, próximo à arara cheia de diferentes modelos e cores de roupas para pegar outras peças. Roça-lhe o braço. Olha-o e persiste no toque, a percorrer-lhe com a mão o braço branco, o peito, até a braguilha que abre. Ajoelha-se e beija, lambe e suga-lhe o membro. No teto há uma escada, na prateleira fantasias, e ele pode ver de onde está o rosto-desejo no pequeno espelho rodeado de fuxicos. Boca gostosa, faz-me gozar. Ele afasta-a, observando-a fulminante, mete-lhe o dedo entre as pernas, cheira e leva-o à boca a sentir o gosto. Lambe-lhe os seios, ai, o clitóris duro, a língua explora e bebe a baba. Ela monta-lhe o ventre, ele a encosta na parede. As mãos grandes de argila encaixam o talo rijo na carne lisa. Abre caminho na clausura num ritmo enlouquecido e quente. Ela beija e morde-lhe a boca, o ombro, o pescoço, e o lustre redondo é lua, mulher-cão.

Do riso

Patrick Desmet
Uma lona estendida, em frente ao trailler azul e branco, forma uma varanda e protege o cão velho, mesa e cadeiras com assento de palha. No dormitório, ele reserva a gaveta do único móvel para o vestuário profissional. São bermudas e calças largas, listradas, axadrezadas, psicodélicas, a serem combinadas em desarranjo com os paletós, pendurados no cabide, à janelinha. Tem preto com lapela brilhante em lantejoulas, e outros mais simples de diferentes estampas.
Da sacola suspensa num gancho improvisado, espalha bonés, perucas, narizes, carecas, em cima da cama. Debaixo, junta dois pares de sapatos envernizados: branco e preto com grande ponta quadrada, outro vermelho e branco, abobadado. Passa a mão numa pequena maleta plástica e tira dali pincéis, lápis, tintas - branca, vermelha, amarela, preta. Ele mesmo as produz. Aprendeu com o pai e ensina ao filho: um diluído à base de vaselina. O mais novo dos três, posudo no porta-retratos à cabeceira, o segue na jornada, constituindo uma dupla.
Nos anos em que divide os lençóis com Beatriz, já andaram na corda bamba. A bengala lhe serve de tipo e, a torto e a direito, os sustenta. O irmão faz mágicas, e a família sobrevive de cidade em cidade. Boa sorte não, merda.

sábado, 20 de junho de 2009

Puerpério...



...depois que se trouxe à tona algo profundamente significativo e doador de sentido.


"A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não numa longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato" Rimbaud

Real é o que produz efeitos
Carl Jung

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cães e vidas





Uma cliente chegou à loja ao final do expediente, bem alterada, dizendo que tinha que ser internada por alcoolismo, que não poderia se garantir mais. Disse que não tinha com quem deixar os cães. Então, me propus a ir a casa dela tratá-los, porque ela estava sofrendo mesmo com o afastamento. Deverá ficar uns 30 dias internada.
No final do expediente, fui ao apartamento que não conhecia. O psiquiatra dela deixou-me a chave. Logo que fiz barulho, as cachorras- duas dachshunds, começaram a arranhar a porta, dando gritinhos de felicidade, esperando a dona. Assim que me viram, estranharam e correram para o quarto, a latir. Havia duas garrafas de velho barreiro em cima de uma mesinha, um copo com cachaça pela metade, e na cozinha a pia cheia de louça suja e panelas com restos de comida. Fui ao quarto e acendi a luz. Elas latiram mais ainda, a protegerem-se no cobertor em cima da cama, aninhadas uma a outra. Como não havia comido meu almoço ao meio-dia e o levava, peguei os dois pedaços de carne vermelha, que não como, para oferecer-lhes de prenda. Elas estavam muito desconfiadas com relação a mim. Joguei-lhes uns pedacinhos e o restante piquei no prato. Depois de uns minutos, comigo sentada à beira oposta, a menor deitou a cabeça na dobra da coberta e fitava-me. Já a maior, em seguida, correu para baixo da cama.
Não sei quantos dias serão necessários para que elas se aproximem de mim. Desta vez, não insisti. Mas espero logo conquistar-lhes a confiança para levá-las para passear. Procurei na sala, à luz baixa de um abajur que estava ligado, um telefone para eu possa contatar com algum familiar da proprietária para que ajeitem o apartamento. Só achei dois telefones- um era de uma vizinha que pouco sabe dela também, e outro é um celular que está sempre desligado. A mesa de jantar estava cheia de correspondências fechadas, e na mesinha de centro da sala, livros de auto-ajuda e biografias de grandes homens- Einstein, Thomas Mann, Freud. Nas estantes fotos de lindas mulheres, inclusive ela, bem arrumadas e cabelos esticados- de um passado, de certo, mais feliz.
Deixei ração e água fresca nos pratos e a cortina aberta para que tomem banho de sol, se ele aparecer amanhã. Eu estarei.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Conto premiado pela Academia Campista de Letras

ACL


Meu conto Relato D´Alma, produzido durante a Oficina literária do professor Assis Brasil, foi premiado pela Academia Campista de Letras no I CONCURSO DE CONTOS, CRÔNICAS E POEMAS ANTÔNIO ROBERTO.Fui classificada em 5 lugar na categoria crônica, embora tenha concorrido na categoria Conto.
Em sessão solene, dia 22 de junho, às 19 horas, a Academia estará celebrando seus 70 anos. Esta noite será marcada pela entrega dos troféus e certificados aos vencedores do Concurso. Parabéns a todos nós que fomos selecionados!



RELAÇÃO DE VENCEDORES

DO CONCURSO DE CONTOS, CRÔNICAS E POEMAS

ANTÔNIO ROBERTO


Agradecendo a todos que participaram do Concurso de Contos, Crônicas e Poemas Antônio Roberto, a Academia quer ressaltar o altíssimo nível dos trabalhos apresentados, o que a estimula a realizar novos concursos. Com abrangência nacional, o concurso revelou a sensibilidade de nosso povo, uma das marcas mais representativas da nossa brasilidade.



CATEGORIA: CONTOS


Colocação - Título - Pseudônimo - Nome - Local


1º lugar - O reinado de Cronos - Ivagaci - Nelsi Inês Urnau - Canoas / RS
2º lugar - O tempo - Gadjó - Paulo Emílio Rodrigues Ferreira - Brasília / DF
3º lugar - Casa vazia - Laurita Motta - Sarah de Oliveira Passarella - Campinas / SP
4º lugar - Bodas de ouro - Dolores - Ricardo Carrranza - Água Branca / SP
5º lugar - Quem criou o tempo? - Pardal - Eduardo de Paula Nascimento -Franca / SP
6º lugar - Cinzas do carnaval - Monte Branco Júnior - Fernando Augusto de Luca - Botucatu / SP
7º lugar - Círculo Vicioso - Minerva - Maria Aparecida S. Coquemala - Itararé / SP
8º lugar - Um conto em três tempos - Poeta adulto - Elias Araújo Américo - Brasiliense / SP
9º lugar - De tempos em tempos - Fernando Porto - Gabriel Gomez - Rio do Sul / SC
10º lugar - O velho e a multidão - Hugo Fernandes - Javier Esteban Cencig - Brooklin Novo / SP


CATEGORIA: CRÔNICAS

Colocação - Título - Pseudônimo - Nome - Local



1º lugar - O tempo - Leon Scaravello - Leopoldo Luiz Sliwak - Curitiba / PR
2º lugar - Balões coloridos - Sarah Cohen - Simone Alves Pedersen - Vinhedo / SP
3º lugar - Era uma vez... - Irineu Evangelista Mauá - José Carlos da Silva - Mauá / SP
4º lugar - Fresta do tempo - Édio - Edson Xavier de Castro - São Paulo / SP
5º lugar - Relato D’alma - Joaquina Leopoldina - Luciane Godinho da Silva - Porto Alegre / RS
6º lugar - A leveza - Filomena Eulália - Tatiane de Oliveira Gonçalves - Salvador / BA
7º lugar - Na acrópole - Minerva - Maria Aparecida S. Coquemala - Itararé / SP
8º lugar - O tempo (movido pelo amor) - Júlia - Tânia Regina Du Bois - Itapema / SC
9º lugar - O tempo é hoje - Elemento Terra - Suzana Fagundes - Rio de Janeiro / RJ
10º lugar - Passatempo - Rosa Sofia - Agatha Dias Lemos - São Paulo / SP


CATEGORIA: POEMAS


Colocação - Título - Pseudônimo - Nome - Local


1º lugar - A penitência da memória - Fernanda Ferrão - Fernanda Huguenin - Campos / RJ
2º lugar - Agora - Jerônimo - Angélica Alves Ruchkys - Belo Horizonte / MG
3º lugar - Limbo - Myramaya - Lúcia Miners - Campos / RJ
4º lugar - No quintal do tempo - Poeta do Uni-verso - Esmerino Rodrigues Júnior - Rio de Janeiro / RJ
5º lugar - Na circular do tempo - Dimythryus - Darlan Alberto Padilha - São Paulo / SP
6º lugar - O tempo - Nara - Renata de Aragão Lopes - Juiz Fora / MG
7º lugar - Tempestade - Königin - Fátima Venutti - Blumenau / SC
8º lugar - Asas - Odisseu - Aluísio Abreu Barbosa - Campos / RJ
9º lugar - O instante devora o tempo - Borgonha - Morvan Ulhoa de Faria - Brasília / DF
10º lugar - Jogo das Horas - Mário de Andrade - Renata Paccola - São Paulo / SP
Patrick Desmet


Há um aquário cheio d´agua transparente. Ali vivem passarinhos de porte pequeno e pretos. Mais pequenos ainda porque estão molhados. A família de pássaros está sentada junto a uma mesa redonda, em cadeiras, ao fundo do aquário. Ninguém acreditava que um pássaro poderia viver dentro d´agua. Foram se adaptando aos poucos até submergirem definitivamente




estou cansado de ser um homem do futuro disse
enquanto eu reunia dois pares de sapatos da barbie e do bob que estavam em cima da mesa dele



sábado, 6 de junho de 2009

cumplicidade

Marcel Mariën

meu dorso começou a rasgar-se de dentro para fora,
gordura, músculos, órgãos, e ele
lençol d´água
cobriu-me da exposição





sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sobre o conto, por Cortázar

1. El cuento, género poco encasillable (...) Nadie puede pretender que los cuentos sólo deban escribirse luego de conocer sus leyes. En primer lugar, no hay tales leyes; a lo sumo cabe hablar de puntos de vista, de ciertas constantes que dan una estructura a ese género tan poco encasillable; en segundo lugar, los teóricos y los críticos no tienen por qué ser los cuentistas mismos, y es natural que aquéllos sólo entren en escena cuando exista ya un acervo, un acopio de literatura que permita indagar y esclarecer su desarrollo y sus cualidades.
2. Ajuste del tema a la forma (...) Los cuentistas inexpertos suelen caer en la ilusión de imaginar que les bastará escribir lisa y llanamente un tema que los ha conmovido, para conmover a su turno a los lectores. Incurren en la ingenuidad de aquél que encuentra bellísimo a su hijo, y da por supuesto que los demás lo ven igualmente bello. Con el tiempo, con los fracasos, el cuentista capaz de superar esa primera etapa ingenua, aprende que en literatura no bastan las buenas intenciones. Descubre que para volver a crear en el lector esa conmoción que lo llevó a él a escribir el cuento, es necesario un oficio de escritor, y que ese oficio consiste, entre otras cosas, en lograr ese clima propio de todo gran cuento, que obliga a seguir leyendo, que atrapa la atención, que aísla al lector de todo lo que lo rodea para después, terminado el cuento, volver a conectarlo con su circunstancia de una manera nueva, enriquecida, más honda o más hermosa. Y la única forma en que puede conseguirse ese secuestro momentáneo del lector es mediante un estilo basado en la intensidad y en la tensión, un estilo en el que los elementos formales y expresivos se ajusten, sin la menor concesión, a la índole del tema, le den su forma visual y auditiva más penetrante y original, lo vuelvan único, inolvidable, lo fijen para siempre en su tiempo y en su ambiente y en su sentido más primordial. (...) Pienso que el tema comporta necesariamente su forma. Aunque a mí no me gusta hablar de temas; prefiero hablar de bloques. Repentinamente hay un conjunto, un punto de partida. Hice muchos de mis cuentos sin saber cómo iban a terminar, de la misma manera que no sabía lo que había en la popa del barco de Los premios, y eso vale para todo lo que he escrito. Es lo que me interesa más: guardar esa especie de inocencia -una inocencia muy poco inocente, si usted quiere, porque finalmente soy un veterano de la escritura- como actitud fundamental frente a lo que va a ser escrito. No sé si usted ha hecho la experiencia, pero hay escritores que proyectan escribir un libro y se lo cuentan a usted en detalle, en un café, todo está listo, todo planteado: cuando lo escriben, generalmente es un mal libro.
3. Brevedad (...) el cuento contemporáneo se propone como una máquina infalible destinada a cumplir su misión narrativa con la máxima economía de medios; precisamente, la diferencia entre el cuento y lo que los franceses llaman nouvelle y los anglosajones long short story se basa en esa implacable carrera contra el reloj que es un cuento plenamente logrado.
4. Unidad y esfericidad. (...) Para entender el carácter peculiar del cuento se le suele comparar con la novela, género mucho más popular y sobre el que abundan las preceptivas. Se señala, por ejemplo, que la novela se desarrolla en el papel, y por lo tanto en el tiempo de lectura, sin otro límites que el agotamiento de la materia novelada; por su parte, el cuento parte de la noción de límite, y en primer término de límite físico, al punto que en Francia, cuando un cuento excede de las veinte páginas, toma ya el nombre de nouvelle, género a caballo entre el cuento y la novela propiamente dicha. En este sentido, la novela y el cuento se dejan comparar analógicamente con el cine y la fotografía, en la medida en que en una película es en principio un "orden abierto", novelesco, mientras que una fotografía lograda presupone una ceñida limitación previa, impuesta en parte por el reducido campo que abarca la cámara y por la forma en que el fotógrafo utiliza estéticamente esa limitación. No sé si ustedes han oído hablar de su arte a un fotógrafo profesional; a mí siempre me ha sorprendido el que se exprese tal como podría hacerlo un cuentista en muchos aspectos. Fotógrafos de la calidad de un Cartier-Bresson o de un Brassai definen su arte como una aparente paradoja: la de recortar un fragmento de la realidad, fijándole determinados límites, pero de manera tal que ese recorte actúe como una explosión que abre de par en par una realidad mucho más amplia, como una visión dinámica que trasciende espiritualmente el campo abarcado por la cámara. Mientras en el cine, como en la novela, la captación de esa realidad más amplia y multiforme se logra mediante el desarrollo de elementos parciales, acumulativos, que no excluyen, por supuesto, una síntesis que dé el "clímax" de la obra, en una fotografía o un cuento de gran calidad se procede inversamente, es decir que el fotógrafo o el cuentista se ven precisados a escoger y limitar una imagen o un acaecimiento que sean significativos, que no solamente valgan por sí mismos sino que sean capaces de actuar en el espectador o en el lector como una especie de apertura, de fermento que proyecta la inteligencia y la sensibilidad hacia algo que va mucho más allá de la anécdota visual o literaria contenidas en la foto o en el cuento. Un escritor argentino, muy amigo del boxeo, me decía que en ese combate que se entabla entre un texto apasionante y su lector, la novela gana siempre por puntos, mientras que el cuento debe ganar por knockout. Es cierto, en la medida en que la novela acumula progresivamente sus efectos en el lector, mientras que un buen cuento es incisivo, mordiente, sin cuartel desde las primeras frases. No se entienda esto demasiado literalmente, porque el buen cuentista es un boxeador muy astuto, y muchos de sus golpes iniciales pueden parecer poco eficaces cuando, en realidad, están minando ya las resistencias más sólidas del adversario. Tomen ustedes cualquier gran cuento que prefieran y analicen su primera página. Me sorprendería que encontraran elementos gratuitos, meramente decorativos. El cuentista sabe que no puede proceder acumulativamente, que no tiene por aliado al tiempo; su único recurso es trabajar en profundidad, verticalmente, sea hacia arriba o hacia abajo del espacio literario. Y esto, que así expresado parece una metáfora, expresa sin embargo lo esencial del método. El tiempo del cuento y el espacio del cuento tienen que estar como condensados, sometidos a una alta presión espiritual y formal para provocar esa "apertura" a que me refería antes. (...) Cada vez que me ha tocado revisar la traducción de uno de mis relatos (o intentar la de otros autores, como alguna vez con Poe) he sentido hasta qué punto la eficacia y el sentido del cuento dependían de esos valores que dan su carácter específico al poema y también al jazz: la tensión, el ritmo, la pulsación interna, lo imprevisto dentro de parámetros previstos, esa libertad fatal que no admite alteración sin una pérdida irrestañable. Los cuentos de esta especie se incorporan como cicatrices indelebles a todo lector que los merezca: son criaturas vivientes, organismos completos, ciclos cerrados, y respiran. (...) -¿Cómo se le presenta hoy la idea de un cuento? -Igual que hace cuarenta años; en eso no he cambiado ni un ápice. De pronto a mí me invade eso que yo llamo una "situación", es decir que yo sé que algo me va a dar un cuento. Hace poco, en julio de este año, vi en Londres unos pósters de Glenda Jackson -una actriz que amo mucho- y bruscamente tuve el título de un cuento: "Queremos tanto a Glenda Jackson". No tenía más que el título y al mismo tiempo el cuento ya estaba, yo sabía en líneas generales lo que iba a pasar y lo escribí inmediatamente después. Cuando eso me cae encima y yo sé que voy a escribir un cuento, tengo hoy, como tenía hace cuarenta años, el mismo temblor de alegría, como una especie de amor; la idea de que va a nacer una cosa que yo espero que va a estar bien. -¿Qué concepto tiene del cuento? -Muy severo: alguna vez lo he comparado con una esfera; es algo que tiene un ciclo perfecto e implacable; algo que empieza y termina satisfactoriamente como la esfera en que ninguna molécula puede estar fuera de sus límites precisos.
5. El ritmo (...) Cuando escribo percibo el ritmo de lo que estoy narrando, pero eso viene dentro de una pulsión. Cuando siento que ese ritmo cesa y que la frase entra en un terreno que podríamos llamar prosaico, me cuenta que tomo por un falsa ruta y me detengo. Sé que he fracasado. Eso se nota sobre todo en el final de mis cuentos, el final es siempre una frase larga o una acumulación de frases largas que tienen un ritmo perceptible si se las lee en voz alta. A mis traductores les exijo que vigilen ese ritmo, que hallen el equivalente porque sin él, aunque estén las ideas y el sentido, el cuento se me viene abajo.
6. Intensidad (...) Basta preguntarse por qué un determinado cuento es malo. No es malo por el tema, porque en literatura no hay temas buenos ni temas malos, hay solamente un buen o un mal tratamiento del tema. Tampoco es malo porque los personajes carecen de interés, ya que hasta una piedra es interesante cuando de ella se ocupan un Henry James o un Franz Kafka. Un cuento es malo cuando se lo escribe sin esa tensión que debe manifestarse desde las primeras palabras o las primeras escenas. Y así podemos adelantar ya que las nociones de significación, de intensidad y de tensión han de permitirnos, como se verá, acercarnos mejor a la estructura misma del cuento.
7. Objetivación del tema (...) Un verso admirable de Pablo Neruda: "Mis criaturas nacen de un largo rechazo", me parece la mejor definición de un proceso en el que escribir es de alguna manera exorcizar, rechazar criaturas invasoras proyectándolas a una condición que paradójicamente les da existencia universal a la vez que las sitúa en el otro extremo del puente, donde ya no está el narrador que ha soltado la burbuja de su pipa de yeso. Quizá sea exagerado afirmar que todo cuento breve plenamente logrado, y en especial los cuentos fantásticos, son productos neuróticos, pesadillas o alucinaciones neutralizadas mediante la objetivación y el traslado a un medio exterior al terreno neurótico; de todas maneras, en cualquier cuento breve memorable se percibe esa polarización, como si el autor hubiera querido desprenderse lo antes posible y de la manera más absoluta de su criatura, exorcizándola en la única forma en que le era dado hacerlo: escribiéndola.
8. Temas significativos. (...) Miremos la cosa desde el ángulo del cuentista y en este caso, obligadamente, desde mi propia versión del asunto. Un cuentista es un hombre que de pronto, rodeado de la inmensa algarabía del mundo, comprometido en mayor o menor grado con la realidad histórica que lo contiene, escoge un determinado tema y hace con él un cuento. Este escoger un tema no es tan sencillo. A veces el cuentista escoge, y otras veces siente como si el tema se le impusiera irresistiblemente, lo empujara a escribirlo. En mi caso, la gran mayoría de mis cuentos fueron escritos -cómo decirlo- al margen de mi voluntad, por encima o por debajo de mi conciencia razonante, como si yo no fuera más que una médium por el cual pasaba y se manifestaba una fuerza ajena. Pero esto, que puede depender del temperamento de cada uno, no altera el hecho esencial y es que en un momento dado hay tema, ya sea inventado o escogido voluntariamente, o extrañamente impuesto desde un plano donde nada es definible. Hay tema, repito, y ese tema va a volverse cuento. Antes de que ello ocurra, ¿qué podemos decir del tema en sí? ¿Por qué ese tema y no otro? ¿Qué razones mueven consciente o inconscientemente al cuentista a escoger un determinado tema. A mí me parece que el tema del que saldrá un buen cuento es siempre excepcional, pero no quiero decir con esto que un tema debe ser extraordinario, fuera de lo común, misterioso o insólito. Muy al contrario, puede tratarse de una anécdota perfectamente trivial y cotidiana. Lo excepcional reside en una cualidad parecida a la del imán; un buen tema atrae todo un sistema de relaciones conexas, coagula en el autor, y más tarde en el lector, una inmensa cantidad de nociones, entrevisiones, sentimientos y hasta ideas que flotaban virtualmente en su memoria o su sensibilidad; un buen tema es como un sol, un astro en torno al cual gira un sistema planetario del que muchas veces no se tenía conciencia hasta que el cuentista, astrónomo de palabras, nos revela su existencia. O bien, para ser más modestos y más actuales a la vez, un buen tema tiene algo de sistema atómico, de núcleo en torno al cual giran los electrones; y todo eso, al fin y al cabo, ¿no es ya como una proposición de vida, una dinámica que nos insta a salir de nosotros mismos y a entrar en un sistema de relaciones más complejo y más hermoso? (...) Sin embargo, hay que aclarar mejor esta noción de temas significativos. Un mismo tema puede ser profundamente significativo para un escritor, y anodino para otro; un mismo tema despertará enormes resonancias en un lector, y dejará indiferente a otro. En suma, puede decirse que no hay temas absolutamente significativos o absolutamente insignificantes. Lo que hay es una alianza misteriosa y compleja entre cierto escritor y cierto tema en un momento dado, así como la misma alianza podrá darse luego entre ciertos cuentos y ciertos lectores.
(...) Y ese hombre que en un determinado momento elige un tema y hace con él un cuento será un gran cuentista si su elección contiene -a veces sin que él lo sepa conscientemente- esa fabulosa apertura de lo pequeño hacia lo grande, de lo individual y circunscrito a la esencia misma de la condición humana. Todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. Ese árbol crecerá entre nosotros, dará su sombra en nuestra memoria.


Fuente: http://estebanpinotti.blogia.com/2006/julio.php

Cria teu e-book!

Bibliografias

Bibliografia Núcleo de Dramatugia SESI SP

POÉTICA
Aristóteles (há várias traduções possíveis).
A EXPERIÊNCIA VIVA DO TEATRO
Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
Hans-Thies Lehmann - Ed. Cosac & Naify, 2007
O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




Psicologia junguiana
EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989
HILLMAN, James. Estudos de Psicologia arquetípica, RJ, Achiamé, 1981
JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado na Obra de C. G. Jung, SP, Cultrix, 1989
JUNG, Carl Gustav. Obras Completas, Petrópolis, Vozes
JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos, RJ, Nova Fronteira, 1964
JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961
NEUMANN, Erich. História da Origem da Consciência, SP, Cultrix, 1990
SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente, RJ, Alambra, 1981
VON FRANZ, Marie-Louise, C.G.Jung, Seu Mito em Nossa Época, SP, Cultrix, 1992
WHITMONT, Edward C. A Busca do Símbolo, SP, Cultrix, 1994
ZWEIG, Connie, e ABRAMS, Jeremiah.(organizadores). Ao Encontro da Sombra, SP, Cultrix, 1994
HILLMAN, James. O Código do Ser, RJ, Objetiva, 1997
MINDELL, Arnold, O Corpo Onírico, SP, Summus, 1989
NEUMANN, Erich. A Criança, SP, Cultrix, 1991
SAMUELS, Andrew e Colaboradores. Dicionário Crítico de Análise Junguiana, R J, Imago, 1988
SHARP, D. Tipos de personalidade, SP, Cultrix, 1990
VON FRANZ, M. L. & HILLMAN, J. A tipologia de Jung, SP, Cultrix, 1990
BOLEN, Jean Shinoda. A Sincronicidade e o Tao, SP, Cultrix, 1991
CLARKE, J. J. Em Busca de Jung, RJ, Ediouro, 1993
FRANZ, Marie-Louise von. Adivinhação e sincronicidade, SP, Cultrix, 1985
HILLMAN, James. Suicídio e alma, Petrópolis, Vozes, 1993
HILLMAN, James. Uma busca interior em psicologia e religião, SP, Paulinas, 1985
PROGROFF, Ira. Jung, Sincronicidade e destino humano, SP, Cultrix, 1989
Tuiavii. O Papalagui, SP, Marco Zero. 1987
GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978
SANFORD, J. Os Parceiros Invisíveis, SP, Paulus, 1986
STEIN, Robert. Incesto e amor humano, SP, Símbolo, 1978
STEINBVERG, Warren. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana, SP, Cultrix, 1992
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega, Petrópolis, Vozes, 1989
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito, SP, Palas Athena, 1990
FIERZ, Heinrich Karl. Psiquiatria junguiana, SP, Paulus, 1997
HILLMAN, J. O mito da análise, RJ, Paz e Terra, 1984
KERÉNYI, Karl. Os Deuses Gregos/Os Heróis Gregos, SP, Cultrix, 1994
SALAND, N. S. A Personalidade limítrofe, SP, Cultrix, 1989
VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma, SP, Cultrix, 1992
SAMUELS, Andrew. Jung e os Pós-Junguianos, RJ, Imago, 1989
SANFORD, John. Os sonhos e a cura da alma. SP, Paulinas, 1991
WHITMONT, Edward e S. Pereira. Sonhos um portal para a fonte,SP, Summus, 1995
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico, SP, Cortez, 2000
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, SP, Ática, 1995
Brandão, Junito de Souza (1998). Mitologia Grega –– Petrópolis: Ed. Vozes, 1998, vol 2, pp. 113-140.
Byington, Carlos A.B. (2008). Psicologia Simbólica Junguiana – São Paulo: Ed. Linear B, 2008, capítulos 1, 2, 3 e 4.

Real é o que produz efeitos, Carl Jung

Solicita teu exemplar! Participo com 3 contos.

Solicita teu exemplar! Participo com 3 contos.
Interessados entrem em contato comigo pelo e-mail lucianegodinho@ig.com.br O valor é 25, despacho pelo Correio sem custo adicional

Pesquisar este blog