sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Diário de viagem

001

Ando numa bicicleta sem guidão, a equilibrá-la somente com o movimento do corpo. Resolvo-me turista em minha própria cidade. O vento sopra, e uma mulher espera nostálgica à janela. É ele, adivinho. Reduzo a velocidade para uma mãe atravessar a rua com uma criança de colo de grandes bochechas, enquanto um homem pinta na praça o Rei e a descascadora de batatas, que usa uma toca branca à antiga. Dou uma volta em torno do pintor e reparo a tela: a serviçal tem feições altivas bem delineadas e parece mais bonita e menos sombra do Rei. Um cachorro me persegue, latindo. Um homem sai de dentro de casa com uma escova de dentes na boca, pijama e touca de lã preta. Entro na Universidade, reconheço a professora que vem adiante. Ela fala-me que recebi o diploma sem terminar de freqüentar o curso, há duas disciplinas pendentes. Rodo em torno dela para não descer da bicicleta. Agora não vou voltar, disse-lhe. Tenho a intenção de aprender outras coisas. Penso que se pode fazer grandes merdas com o uso adequado do método científico e obter-se excelente classificação- levei quase 10 na monografia. Passa uma mulher gorda, vestida com uma roupa de cetim amarela. A calça é tão justa que lhe marca as carnes. Pedalo, pedalo e dou num campo. Há uma equipe de resgate, uma rapariga está desaparecida. Enchem balões, que usam chapéus, e sobem neles. Peço que amarrem um dos balões na bicicleta para eu auxiliar na busca. Enxergo tudo lá embaixo. Vou em direção ao valão de esgoto para ver se o corpo está lá. Grito para um guri se ele vê algo, ele faz sinal positivo com o dedão. Entretanto, quando estou quase aterrissando, comunica que fez aquilo só para assustar a irmã que o acompanha. Há também a orla enorme a ser vasculhada, e a estrada que leva de volta à cidade. Decido descer e seguir por terra, a acabar como o padre Quevedo. Passo por um carro com um homem a apontar uma arma para a rapariga que está no banco do carona. Ao mesmo tempo, vem em sentido contrário o carro da polícia que se desloca para o local do desaparecimento. Faço umas expressões para ver se o policial se dá conta do que está acontecendo dentro do outro carro, mas ele julga que estou lhe cantando e pisca. Á beira da estrada, uma cadela tem o dorso todo aberto, aparecem-lhe as carnes internas. Ali se aninha um filhote. Ela abre-se para que o filhote nasça, e uma jaguatirica avança em ambos. É o fim do concerto de um cantor regional. Na placa vê-se que o ingresso é barato. Poucas pessoas saem lá de dentro, e o cantor parece velho e resignado. Começa a chover forte, há uma casinha ao longe. Desço da bicicleta, estacionando-a sob a calha. Quando vou bater à porta, ela abre-se. Não há ninguém. Estou a erguer a blusa molhada, e o Antônio Banderas aparece somente de toalha. Abaixo a blusa, porque não sei se posso ter este tipo de intimidade com ele. Ele chega-se e me beija na boca. Estamos abraçados sobre a cama, acabo adormecendo segurando-lhe o pênis. Aproveitamos bastante, porque amanhã parto com a minha bicicletinha.
****
Adiante passo por um local em obras, que está cercado por compensados. Depois da noite com Antônio Banderas, tenho a sensação de que todas as pessoas que conheci contribuiram para que eu estivesse ali. Volto os tantos metros para ficar mais um pouco. Na estrada há um coração de bolacha caseira corroído que fica para trás. Ele ainda dorme, e o acordo de mansinho.
Entro num bairro da periferia, um homem ao guichê vende relógios, de diferentes tamanhos, modelos e cores. Ainda em cima da bicicleta, encosto-me ali e lhe digo que quero um, mas que seja transparente. As casas têm estilo colonial português, uma ao lado da outra. Desço, porque vejo uma placa escrita: Seu João, curandeiro. Homens estão deitados em camas- viris, apesar de estarem doentes por algum tipo de decadência moral. Existe beleza naqueles corpos entregues à miséria de si. Há também uma mulher, que está grávida de papel amassado, a barriga é murcha- trabalha numa repartição pública e diz que pode proporcionar uma vida boa para o filho. Torno a andar pela rua, um homem tenta estacionar o carro e não consegue. Desce e o empurra mais para lá, mais para cá, até ficar perfeito, como se não pesasse nada. Uma mulher põe para fora de casa um grande cubo de gelo, nas escadas, resvala, quebra e sai um homem lá de dentro dizendo: Minha noiva, minha noiva, de braços abertos, completamente perdido. Ela entrega-lhe a mochila para que volte de onde veio. Uma mãe está de mãos dadas com uma menina de uns quatro anos. Parada, com ela ao lado, pergunta-lhe se está pronta. Parece que a mãe vai deixá-la seguir sozinha. A menina responde que sim , segurando um bicho de pelúcia branco ao braço. Vai girar no escuro.

9 comentários:

  1. muito legal, senti-me mergulhado em um sonho.
    Proposta: o q vc acha de expandir cada núcleo de ação que vc narra?

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  2. Bom dia! A Maria disse a mesma coisa, mas não sei se consigo, porque tenho a impressão qu ele nasceu para ser assim. Posso tentar mais adiante.

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  3. não sei, eu não acho que ele tenha nascido para ser assim, nasceu assim na essência e está pronto para ser esculpido.

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  4. Vou pensar nisto Javier,logo terei tempo sobrando. Faltam treze dias para minha alforria. Vou te enviar as coisas que separei pra ti e a tua mochila dia 02, antes de viajar. Mas igual, lá em Tapes vou por internet e abro um msn novamente para ficarmos em contato e para eu ir compartilhando contigo meus avanços literários e fotográficos. E, lógico, ver teus trabalhos também! Gosto de ti. Obrigada, bj

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  5. Tou levando toda seleção que a Yvette Centeno me recomendou, a bibliografia do mestrado em escrita criativa, livros de fotografia, os que me deste e que não li ainda...Vou ficar um mês toda zen, só fazendo o que gosto!!!!

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  6. depois penso no futuro, mas sei que estou tomando o caminho que devo.

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  7. Eu tbém acho, e estou muito contente por tua decisão. Estou cozinhando uma decisão parecida.

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  8. Gostei deste texto porque ele segue a lógica da vida e não a determinação literária de um núcleo de ação. A gente vê tudo fragmentado, as coisas acontecem, independente do nosso olhar a vida segue. Então, cada passagem se estende e fica longe do olho do narrador. Javier, faz mudanças sim, a vida é só uma e grande, e os acontecimentos vários.

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  9. Cresce, te desenvolve, porque és cheio de possibilidades.

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Bibliografias

Bibliografia Núcleo de Dramatugia SESI SP

POÉTICA
Aristóteles (há várias traduções possíveis).
A EXPERIÊNCIA VIVA DO TEATRO
Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
Hans-Thies Lehmann - Ed. Cosac & Naify, 2007
O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




Psicologia junguiana
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JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado na Obra de C. G. Jung, SP, Cultrix, 1989
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Byington, Carlos A.B. (2008). Psicologia Simbólica Junguiana – São Paulo: Ed. Linear B, 2008, capítulos 1, 2, 3 e 4.

Real é o que produz efeitos, Carl Jung

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