quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Farinha de ossos

mark ryden
Combinam às treze horas. Ela tem de fechar o brechó, e Augusto prevê a demora de algum cliente. Catarina Helena chega seis minutos atrasada para o almoço e conta que, logo cedo, em pleno centro da cidade, um desconhecido seguiu ao seu lado a explicar-lhe que nossos ossos vêm de outro planeta.
- A farinha de ossos é retirada como um mineral do solo por tipos de retroescavadeiras - explica ela. - Estamos aqui como que fabricados por um comando maior para determinados propósitos, temos apenas a ilusão de controle.
- Como pode ser isto? Então as pessoas não são livres? E a carne do corpo? E este menino aí hem?
Esclarece que a criança estava perdida. Circundando-a, transeuntes batiam palmas, com a intenção de chamar a atenção do adulto que porventura estivesse com ela. No início, eram muitos, entretanto cada qual foi tratando de seus afazeres. Só restou Catarina Helena a executar aquele gesto. Trouxe-a consigo.
Augusto prepara o jantar, enquanto ela acompanha o dormir do menino, que tem uns quatro anos e uma espécie de escamas verdes no dorso, como uma tatuagem. Dá-lhe uma má impressão aquilo. A qualquer momento, Augusto jura, ele terminará por se metamorfosear. Tratará de encaminhá-lo assim que seja possível.
À exceção dos domingos, quando se permitem dormir até às nove e quarenta e cinco, acordam cedo. Quando não chove, fazem caminhadas à beira-mar.
No dia seguinte, vêem que, misturado à areia, há um tipo de calcário, trazido pelo mar, revelando um lençol branco com cerca de quatro quilômetros de extensão. Aquele fenômeno atrai muitas pessoas. Augusto pergunta a uma mulher o que se passa, e ela sem noção, responde que é gesso.
Um artista plástico inicia e finaliza ali uma efígie. Crianças modelam castelos resistentes e carrinhos- os quais andam como se vida tivessem. O fino pó branco, em contato com a água do mar e a areia, tem propriedade transformadora, unindo, como uma cola.
Todo corpo deve ter, pelo menos, um elemento aglomerante. Isso Augusto sabe. Desde sempre aprendeu, com a mãe, sobre o potencial de ligadura da clara de ovo na culinária. Já com o pai, que o cimento agregado à areia assenta tijolos. E, na escola, se deparou com os fatores de textualidade, unindo palavras e frases. Mas nunca se viu tais elementos animarem uma torta de abobrinha com tomate, uma casa ou um texto.
- É farinha de ossos - presume Catarina Helena.
Ao retornarem, Augusto toma uma ducha e dá uma relida nos processos antes de ir para o escritório.
Na hora do Jornal Nacional, ligam a televisão. Catarina Helena aponta para o homem sem camisa que aparece no vídeo, rodeado de repórteres, identificado como um dos pesquisadores que fará o levantamento do fenônemo.
Reconhece-o como sendo o mesmo que o intrigara com a teoria interplanetária. Podem ver, sim, no braço dele, escamas verdes idênticas às do menino. Catarina Helena julga ter encontrado o pai da criança.
Augusto dá graças, poderá novamente assumir de forma inflexível suas rotinas e manias. Passam-se onze minutos da hora dele se deitar.

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Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
Hans-Thies Lehmann - Ed. Cosac & Naify, 2007
O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




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JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos, RJ, Nova Fronteira, 1964
JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961
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WHITMONT, Edward C. A Busca do Símbolo, SP, Cultrix, 1994
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Byington, Carlos A.B. (2008). Psicologia Simbólica Junguiana – São Paulo: Ed. Linear B, 2008, capítulos 1, 2, 3 e 4.

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