terça-feira, 28 de setembro de 2010

O duradouro e o fugaz na arte

Dantes o tempo corria lento meu
Dantes, matava-se o tempo teu
Mas tudo isto passou
Foi o tempo que me matou!
Xutos e Pontapés

Tempo e espaço são nada, disse o psicólogo Carl Jung. São conceitos hipostasiados, nascidos da atividade discriminadora da consciência e formam as coordenadas indispensáveis para a descrição do comportamento dos corpos em movimento. Nas artes visuais o movimento aparece por meio da representação de objetos ou situações que envolvem ação. O movimento modifica a percepção de mundo e é a partir disso que algumas linguagens experimentais passam a incorporar a participação física e a ação do espectador.
A fotografia voltou-se para a redução cada vez mais drástica do tempo de exposição, a captar o movimento numa imagem única como no trabalho de Gustave Jean -Baptiste Le Gray (1820 -1884 ) em A Onda ou na n´A estação de Saint-Lazare, de Monet. Depois vem o cinema devolver o movimento para fotos, com René Clair (1898-1981), entre outros. A fotografia é o pré-requisito técnico. O cinematógrafo é concebido como reprodução do movimento e como olhar no tempo: uma fotografia que dura e que se mexe- algo que se constitui como sua própria negação.
As experiências e progressos na fotografia voltaram-se para uma redução cada vez mais drástica do tempo de exposição, ou seja, instantâneos perfeitos. Apesar de trabalhos pioneiros como de Étienne-Jules Marey (1830-1904 ) ou Eadweard J. Muybridge (1830-1904), a fotografia logo se consolidou como a arte da tomada isolada, da imagem única, do congelamento de um instante temporal curto, deslocado do antes e do depois do fluxo do tempo, sendo toda a espessura temporal que cerca o momento da tomada anulada ou esvaziada de sua substância. Para os defensores da fotografia como arte, a ruptura com o continuum referencial permitiria ao fotógrafo aproximar-se melhor da arte pictórica- arte da simultaneidade e não da sucessividade. A partir da constatação dificilmente negável de que toda fotografia é uma imagem do passado, a análise teórica do tempo fotográfico, muitas vezes, deixou-se conduzir por simplificações ditadas talvez pela prática dominante da fotografia como busca do instante privilegiado através da imagem única. Há assim uma concepção estreita de tempo no âmbito fotográfico. A fotografia com domínio na sua apreensão do tempo e do espaço é pequeno bloco de espaço-tempo, delimitado, congelado, arrancado de um só golpe do continuum do real. Marey foi um dos pontos históricos essenciais da lógica surpreendente da fotografia: o movimento visível- através de sua interrupção.
A sociedade ocidental questiona-se o que aceita ou que define como arte. Ao promover o ready made, por exemplo, o movimento dadaísta conseguiu demonstrar que qualquer objeto pode ser transformado em objeto de arte com a condição de que esteja exposto num local adequado. Depois o movimento da arte in situ articula obra e lugar, modificando nossa concepção da obra, bem como do lugar. A obra de Smithson é percorrida e utilizada pelo público, ou pode se tornar um espaço suscetível de ser modificado pelos usos diferentes (e não apenas pelos diversos usos) que dele se pode fazer como Os dois pratos , de Buren. Numerosos praticantes do in situ utilizam-se da fotografia no seu trabalho sobre o lugar, abrindo-se à duração e ao futuro.
Conforme o filósofo e sociólogo Walter Benjamin, a fotografia contribuiu para privar a obra de sua aura. É interessante ler o artigo O público moderno e a fotografia, de Baudelaire sobre este aspecto. Mas para Benjamin o importante não é interrogar sobre o estatuto artístico ou não artístico da fotografia, mas como o conceito de arte foi desarranjado, graças também à fotografia que apareceu antes. A prática fotográfica e o recente impulso da arte in situ estão na fronteira existente entre o que é arte e o que não é arte, embora a fotografia esteja devidamente inserida no mercado e comércio da arte contemporânea. Entretanto, o presente fugaz do olhar do espectador não está somente em Trenzinho, de Mira Schendel, obra frágil, feita de papel, quando a dimensão temporal diz respeito ao momento da fruição.

Fonte:
Samain, Etienne,org. O fotográfico– 2 edição- São Paulo: Editora Hucitec/Editora Senac São Paulo, 2005.

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Aristóteles (há várias traduções possíveis).
A EXPERIÊNCIA VIVA DO TEATRO
Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
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LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
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O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




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JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos, RJ, Nova Fronteira, 1964
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