sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Como eu escrevo: no meu jardim ainda brota, às vezes, um livro (mesmo se ninguém está propriamente à espera dele)

do escritor português Manuel Jorge Marmelo, publicado no Teatro Anatômico
(texto publicado na Time Out Porto de Outubro, já nas bancas; vem com uma fotografia excelente para afastar as formigas das latas do açúcar)

Se as palavras e as frases fossem como plantas de jardim e necessitassem de cuidados quotidianos, de serem regadas e podadas, se precisassem de doses regulares de sol e de chuva, o eventual jardim que calhasse ter sido entregue à minha guarda estaria, muito provavelmente, seco e estiolado, ao abandono, tomado pelas ervas daninhas, pelo mato selvagem. Talvez, na verdade, estejam também assim as páginas que eu escrevo cada vez mais irregularmente - agora que um certo cansaço de apoderou de mim e, muitas vezes, não seja já capaz de me convencer de que vale a pena cuidar das plantas de canteiros que ninguém verá, de frases que quase ninguém vai ler.

Escrevo, enquanto jornalista, todos os dias, se calhar por simples deformação profissional, por obrigação, como um lixeiro que sai à noite para recolher a porcaria dos outros. Quando, depois, chego a casa e as tarefas domésticas se extinguem, faço cada vez menos aquilo que antes gostava de fazer: sentar-me, abrir o computador e escrever uma coisa que aspirava a ser literatura e que talvez o fosse; ficar ali até serem horas de dormir, tentando uma escrita que não fosse a mesma escrita burocrática que praticava durante o dia, que inventasse vidas e pessoas, mundos.

Foi-se extinguindo, creio, o entusiasmo que, antes, me fazia ignorar o cansaço. Talvez esteja a ficar velho, ou apenas descrente de quase tudo, como se soubesse que as eventuais vidas que possam sair-me dos dedos não chegarão jamais a ser vidas completas, inteiras, e que, por defeito meu, estão inevitavelmente condenadas a serem efémeras e algo toscas, como gente mal nascida. Se uma frase, às vezes, ainda me assalta, se me desassossega e volta a fazer sonhar, tento guardá-la escrevendo-a em pequenos cadernos, entre as suas folhas, como certos botânicos fazem com os espécimes vegetais, depositando-as entre páginas para que sequem e, assim, se preservem. Faço-o, sobretudo, porque a memória me trai cada vez mais frequentemente e temo, assim, não ser capaz de recordar-me amanhã de como eram as cores e o cheio de uma frase. E, às vezes, dessas sementes deixadas ao acaso, ainda calha brotar um livro.

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POÉTICA
Aristóteles (há várias traduções possíveis).
A EXPERIÊNCIA VIVA DO TEATRO
Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
Hans-Thies Lehmann - Ed. Cosac & Naify, 2007
O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




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JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos, RJ, Nova Fronteira, 1964
JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961
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