quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ser poeta

O fogo sagrado







Os gregos o chamavam de deus da riqueza, um deus doméstico, o fogo doméstico. Vesta não era senão uma chama viva



A casa de um grego ou um romano continha um altar ( vesta, ara ou focus). Sobre este altar, ele devia manter sempre um pouco de cinza e carvões acesos. Tratava-se de uma obrigação sagrada para o chefe de toda casa conservar o fogo dia e noite. Desventurada a casa onde este fogo apagasse! Em certos momentos do dia colocava-se no fogo doméstico ervas secas e lenha e então o deus se manifestava sob a forma de flama brilhante. Ao anoitecer de cada dia os carvões eram cobertos de cinzas para impedir que se consumissem completamente no desenrolar da noite; ao despertar, o primeiro cuidado era reavivar esse fogo e alimentá-lo com alguns ramos secos. O fogo só cessaria de brilhar sobre o altar quando toda família tivesse perecido; fogo extinto e família extinta eram expressões sinônimas entre os antigos (Ésquilo, Agamen, Eurípedes, Héracles furioso).

Esse uso remonta a uma antiga crença, não era um costume insignificante. O fogo só podia ser alimentado por determinadas árvores, caso contrário seria uma impiedade. Deveria permanecer sempre puro (Héracles furioso), ou seja, que nenhum objeto sujo deveria ser lançado ao fogo, e, em sentido figurado, que nenhuma ação culpável deveria ser perpetrada em sua presença.

Esse fogo era qualquer coisa de divino. Era adorado, a ele rendia-se um verdadeiro culto. Dava-se a ele em oferenda tudo o que poderia ser agradável a um deus: flores, frutas, incenso, vinho. Imploravam-lhe sua proteção, acreditava-se que era poderoso. Eram-lhe dirigidas orações fervorosas, visando obter dele saúde, riqueza, felicidade. Quando o palácio de Príamo é invadido, Hécuba arrasta o velho rei para perto do fogo doméstico: "Tuas armas não saberão te defender, diz-lhe ela, porém este altar a todos nos protegerá. Alceste (Eurípedes) que vai morrer, dando a vida para salvar o esposo, aproxima-se de seu fogo doméstico e o invoca. No infortúnio, o homem conduzia seus lamentos ao seu fogo doméstico, na felicidade rendia-lhe graças. O soldado que retornava da guerra o agradecia. Ésquilo apresenta Agamenon voltando de Tróia, feliz, coberto de glória- mas não é à Júpiter que ele irá agradecer, nem é a um templo que leva seu júbilo e reconhecimento. Ele oferece o sacrifício de ação de graças ao fogo doméstico que se encontra em sua casa. O homem jamais saia de casa sem dirigir uma prece ao seu fogo doméstico; ao retornar, mesmo antes de rever sua mulher e abraçar seus filhos, era imperioso que se inclinasse ante o fogo doméstico e o invocasse (Eurípedes, Héracles furioso).

Sacrifícios eram oferecidos a ele; ou, a essência de todo sacrifício consistia em conservar e reavivar este fogo sagrado, em alimentar e desenvolver o corpo de deus. É por isso que lhe davam lenha, o vinho ardente da Grécia, azeite, incenso, a gordura das vítimas. O deus recebia as oferendas e as devorava. Satisfeito e radiante, se erguia no altar e iluminava aquele que o adorava com seus raios.

O repasto era o ato religioso por excelência- quem presidia era o deus. Era ele quem cozinhava o pão e preparava os alimentos, assim faziam uma prece a começo e fim do repasto. Antes de comer, colocava-se sobre o altar as primícias do alimento, antes de beber, derramava-se a libação de vinho. Era parte do deus. Ninguém duvidava de sua presença: não se via a flama elevar-se e crescer, como se tivesse se nutrido dos manjares oferecidos? O repasto era partilhado pelo homem e deus, em comunhão.

Em todos os sacrifícios, mesmo aqueles que eram feitos em honra de Zeus ou Atenas, era sempre ao fogo doméstico que se dirige a primeira invocação. Toda oração a um deus, qualquer que fosse, devia começar e terminar por uma oração ao fogo doméstico (Aristófanes, Aves). Em Olímpia, o primeiro sacrifício que a Grécia reunida oferecia era para o fogo doméstico, o segundo para Zeus. Todos se lembravam que o fogo doméstico era muito anterior a esses deuses. Ele assumira, há muitos séculos, o primeiro lugar no culto, e os deuses mais novos e maiores não haviam conseguido removê-lo dessa posição.

Grande prova da antiguidade dessa crença e de sua prática é que se encontrava simultaneamente entre os homens das margens do Mediterrâneo e entre aqueles da península indiana. É certo que os gregos não tomaram dos hindus essa religião, nem os hindus dos gregos. Contudo, os gregos, os itálicos, os hindus, pertenciam a uma mesma raça; seus ancestrais numa época muito remota, viviam juntos na Ásia Central. Foi lá que conceberam pela primeira vez essas crenças e conceberam esses ritos. A religião do fogo sagrado data, portanto, de uma época remota quando não existiam ainda nem gregos, nem itálicos, nem hindus, mas tão somente arianos. Quando as tribos se separaram umas das outras, transportaram com elas este culto, umas para as margens dos Gangues, outras para as costas do Mediterrâneo. Posteriormente, entre essas tribos apartadas e que não tinham mais relações entre si, algumas passaram a adorar Brahma, outras Zeus, outras Juno. Cada grupo concebeu seus deuses. Mas todos conservaram como tradição a primeira religião que haviam concebido e praticado no berço comum de sua raça.

Há estreita conexão entre o fogo sagrado e o culto dos mortos. O que se via nesse fogo não era puramente o elemento físico que aquece e queima, que transforma os corpos, funde os metais. É um fogo puro, que só pode ser produzido com a ajuda de certos ritos e só pode ser conservado com certa espécie de madeira. É um fogo casto- não faziam sexo em sua presença. Não se pede a ele somente riqueza e saúde, as também um coração puro, temperança e sabedoria. O fogo doméstico é também uma espécie de ser moral, que detém um pensamento, uma consciência. Possui do homem a dupla natureza: fisicamente resplandece, se move, vive, busca a abundância, prepara o repasto, nutre o corpo, ao mesmo tempo que possui sentimentos e afeições, outorga ao homem a pureza, soberano do belo e do bem, nutre a alma- dupla sucessão de manifestações. É o deus da natureza humana, força moral e pensante que anima nosso corpo.

Aqueles que os antigos chamavam de Lares ou Heróis não eram senão almas dos mortos, às quais o ser humano atribuía poder sobre-humano e divino. A lembrança de um desses mortos sagrados estava sempre vinculada ao fogo doméstico. Ao adorar um, não se podia esquecer o outro. Estavam associados no respeito dos homens em suas orações. Os descendentes, quando se referiam ao fogo doméstico, recordavam de imediato o nome do antepassado (Eurípedes, Orestes).

Excertos adaptados de A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges

terça-feira, 27 de abril de 2010

DIONISIACAS EM VIAGEM

ASSOCIAÇÃO
TEAT(R)O OFICINA
uzyna uzona





ESTRÉIA NACIONAL DIA 29 DE ABRIL!!

Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona Lança DIONISIACAS EM VIAGEM
Projeto Percorrerá 8 Estados Brasileiros com Espetáculos e Oficinas.
Todas as Atividades Serão Gratuitas.


Em uma realização inédita em sua história de 52 anos, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona realizará o sonho de percorrer o Brasil com 4 espetáculos do repertório e oficinas de troca.

No próximo dia 29 de abril, terá início a maratona que definitivamente ficará para a história do Teat(r)o Oficina, seu artífice Zé Celso Martinez Corrêa, elenco, equipe e para uma parcela da população brasileira.

Uma parceria com o Ministério da Cultura, possibilitará ao Teat(r)o Oficina, circular por 10 meses, realizando espetáculos em estruturas de Teatro Estádio, com platéias enormes, de 2.000 até 25.000 pessoas, entradas gratuitas, sendo em algumas cidades valida a troca por alimentos não perecíveis para doação ou ainda resíduos recicláveis de lixo.

O projeto de fortalecimento e consolidação de uma das maiores companhias de teatro do Brasil na atualidade, DIONISIACAS EM VIAGEM tem o desafio de garantir o acesso à arte para quem não pode pagar ingressos ou nunca tenha descoberto o teatro. Com a realização de dezenas de sessões dos espetáculos Cacilda!! Estrela Brazyleira a Vagar, Bacantes, Taniko e O Banquete de Platão.

Durante as viagens acontecerão oficinas de troca nas cidades, aonde os artistas de todas as áreas do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, conduzirão trabalhos em torno de Oswald de Andrade, Artaud, Bertold Brecht e da dramaturgia das 4 peças, enquanto grupos culturais locais, desenvolverão oficinas para os 57 integrantes da Cia. que estarão na turnê.

Enquanto parte da equipe viaja, outra parte ficará em São Paulo dando suporte a turnê e, especialmente, realizando o projeto Bixigão, atividades sócio-culturais junto a comunidade do entorno do teatro, que também receberá as informações coletadas das experiências vividas durante a caravana nacional.

Além disso, acontecerão cortejos na chegada as cidades, ensaios abertos, um diário de viagem no site do Oficina, com depoimentos e imagens inseridos durante o processo, uma rádio dionisíaca e a transmissão ao vivo para a internet de apresentações e oficinas, ampliando ainda mais o acesso ao público.

Num olhar mais aprofundado, DIONISIACAS EM VIAGEM mostra que vai além de uma turnê teatral, o grupo sai de São Paulo para poder então voltar mais imponderado de seu Brasil, e reúne em si a bandeira com o conjunto de tudo o que a Cia. e seu incansável mentor Zé Celso Martinez Corrêa buscam em sua batalha que já ultrapassa meio século, e culmina na criação do complexo Anhangabaú da Felicidade, onde existirão o Teatro de Estádio, a Universidade Antropófaga Brazyleira e a Oficina de Florestas.

Evoé!!!

** Extra 1:
Link com áudio / depoimento de Zé Celso sobre Dionisíacas em Viagem.
http://rcpt.yousendit.com/856519065/748fd04c15b980f56b6c78ab0fddc38e

** Extra 2:
O Geógrafo e pensador Aziz Ab’ Saber, se reunirá com a equipe do projeto DIONISIACAS EM VIAGEM para uma conversa sobre a geosociografia do Brasil e a preparação de abordagem nas cidades.

ESTRÉIA DIONISÍACAS EM SAO PAULO !!!
29 de abril às 21h – TANIKO
30 de abril às 20h – CACILDA!!
01 de maio às 18h – BACANTES
02 de maio às 18h – BANQUETE

06 de maio às 21h – TANIKO
07 de maio às 20h – CACILDA!!
08 de maio às 18h – BACANTES
09 de maio às 18h – BANQUETE

Teatro Oficina
Rua Jaceguai, 520 Bixiga São Paulo
Info> 11. 3104.0678
www.teatroficina.com.br
Ingressos: 1 kg de alimento não perecível (serão doados para 2 instituições sociais do Bixiga).
Retirar a partir de 2 horas antes do início dos espetáculos.

- Produção de Comunicação / Imprensa
Dolores Papa
55+ (11) 3106.5300 Casa de Produção
dolorespapa@teatroficina.com.br

- Coordenação de Produção e Projetos
Ana Rubia de Melo
55+ (11) 9998.1957
anarubia@teatroficina.com.br

Confira os espetáculos, cidades e datas no site do Oficina em http://www.teatroficina.com.br/

segunda-feira, 19 de abril de 2010

De Borges



Creio que as opiniões de um escritor não devem interferir em sua sua obra. O processo poético é misterioso; temos que deixá-lo por sua própria conta.

***



Penso a leitura como um ato criativo. Porém, repito, a emoção é necessária: sem emoção não se pode escrever. O importante é sonhar e ser sincero com o sonho quando se escreve, ou seja, somente contar fábulas nas quais se acredita. Isto viria a ser a sinceridade literária, e o único dever do escritor: ser fiel aos seus sonhos, não às meras circustâncias.
***



Acontece que não gosto do que escreveo. Nesta casa voce não encontrará um único livro meu, pois quem sou eu para ombrear-me com Euclides da Cunha, Camões ou Montaigne?
***



não tem uma página minha, por mais descuidada e espontânea que seja, que não tenha exigido vários e vacilantes rascunhos
***



Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica.
***



— Tua massa de oprimidos e párias — respondi — não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego.
***



Às vezes, em plena tarde, uma face

Nos observa do fundo do espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela a própria face.
***



Um atributo do infernal é a irrealidade


O Livro, de Borges

Aula proferida na Universidade de Belgrano 1978
Traduzido de "Obras Completas IV" - Borges Oral - ed. EMECÉ

Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone uma extensão da voz e finalmente temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém, é outra coisa. O livro é uma extensão da memória e da imaginação. Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala sobre a biblioteca de Alexandria , os livros são descritos como a memória da humanidade. O livro é isto e muito mais, é também a imaginação. O que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Afinal que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado ? A função do livro é recordar.
Pensei, certa vez, em escrever uma história do livro, não do ponto de vista físico. Os livros não me interessam fisicamente - sobretudo as coleções dos bibliófilos, em geral imensas -, mas sim como eles podem ser avaliados ao longo do tempo. Splenger me antecipou, em seu livro "Decadência do Ocidente" onde têm páginas preciosas sobre o livro. Com alguma pitada pessoal penso ater-me aqui ao que disse Splenger Os antigos não professavam nosso culto ao livro - coisa que me surpreende. Para eles o livro é um sucedâneo da palavra oral. A frase latina "Scripta manet, Verba volans" não quer dizer que a palavra oral seja volátil, mas sim que a palavra escrita permanecerá e está morta. Por sua vez a palavra oral tem algo de sutil, volátil, sublime e sagrado, como disse Platão. Todos os mestres da humanidade foram, curiosamente, mestres orais . Vejamos o primeiro caso: Pitágoras. Sabemos que, deliberadamente, Pitágoras nada escreveu. Pitágoras não escreveu porque não quis. Não escreveu porque não desejava limitar-se à palavra escrita. Sentiu sem dúvida que a letra mata mas o espírito vivifica; o que, mais tarde, será citado na Bíblia. Ele deve ter sentido isto, e não quis limitar-se à palavra escrita, por isto Aristóteles nunca fala de Pitágoras, mas sim dos Pitagóricos. Nos disse por exemplo que os pitagóricos professavam a crença, o dogma, do eterno retorno, que mais tarde foi redescoberto por Nietzsche. Ou seja, a idéia do tempo cíclico, que foi refutada por Santo Agostinho em Cidade de Deus. Santo Agostinho nos diz, através de uma linda metáfora, que a cruz de Cristo nos salva do labirinto circular dos estóicos. A idéia de um tempo cíclico também foi revista por Hume, Blanqui e tantos outros. Pitágoras não escreveu porque não quis. Queria que seu pensamento permanecesse vivo além de sua morte física, na mente de seus discípulos. Daqui veio aquele ditado (eu não sei grego, tratarei de dizê-lo em Latim) "Magister dixit" (o mestre assim disse ). Isto não significa que estivessem limitados ao que o mestre havia dito, ao contrário, afirmavam a liberdade de continuarem refletindo o pensamento original do mestre.Não sabemos se Pitágoras foi o iniciador da doutrina do tempo cíclico, porém sabemos que seus discípulos a professavam. Pitágoras morre físicamente e eles, por um tipo de transmigração - e isto teria agradado a Pitágoras - seguem pensando e repensando seu pensamento, e quando se reprovam ao dizer algo novo, se refugiam naquela fórmula: "assim disse o Mestre - Magister Dixit."Porém temos outros exemplos. Platão, em um exemplo ilustre, disse que os livros são como esfinges (pode ter pensado em esculturas ou em quadros), que nós cremos que estão vivas, porém se lhes perguntamos sobre alguma coisa elas nada respondem. Então para corrigir esta mudez dos livros, ele inventa o diálogo platônico. Digamos que Platão multiplica-se em vários personagens: Sócrates, Gorgias e os demais. Também podemos pensar que Platão queria consolar-se da morte de Sócrates imaginando que este seguiria vivendo em seus Diálogos. Frente a qualquer questão Platão perguntava-se: "O que Sócrates pensaria a respeito disto?". Deste modo Platão imortalizou Sócrates, que também não deixou nada escrito e foi um mestre oral. Sabemos que Cristo escreveu uma única vez algumas palavras na areia que o vento acabou apagando. Ao que se saiba não escreveu mais nada. Buda também foi um mestre oral e só ficaram suas prédicas.Temos uma frase de Santo Anselmo "um livro nas mãos de um ignorante é tão perigoso quanto uma espada nas mãos de uma criança". Isto é o que se pensava dos livros.No Oriente existe ainda um conceito de que um livro não deverevelar as coisas, um livro deve, simplesmente, ajudar-nos a descobrilas.Apesar de minha ignorância do Hebráico, estudei algo da Cabala. Li as versões inglesas e alemãs do Zohar (O Livro do Esplendor), El SeferYezira (O Livro das Relações). Sei que estes livros não estão escritos para serem entendidos, porém para serem interpretados , são desafios  para que o leitor continue a pensar. A antiguidade clássica não teve este nosso respeito pelo livro, embora saibamos que Alexandre da Macedônia tinha, em baixo do travesseiro, a Ilíada e a espada, estas duas armas. Havia grande respeito por Homero, porém não era considerado um escritor sagrado no sentido que temos hoje pela palavra. Não se pensava na Ilíada e na Odisséia como textos sagrados, eram livros respeitados, porém podiam ser criticados. Platão pode expulsar os poetas de sua República sem cair em suspeita de heresia.
Do testemunho dos antigos contra os livros podemos apontar um muito curioso de Sêneca. Em suas admiráveis cartas a Lucílio, tem uma dirigida contra um indivíduo muito vaidoso, de quem se diz que tem uma biblioteca de cem volumes; e quem - pergunta Sêneca - pode ter tempo para ler cem volumes ? Por outro lado hoje se apreciam bibliotecas grandes.
Na antiguidade tem uma coisa de difícil compreensão, que não se parece com nosso culto ao livro. O livro sempre é visto como uma extensão da palavra oral, porém surge no Oriente um conceito novo, de todo estranho à antiguidade clássica: a do livro sagrado . Vamos tomar dois exemplos, começando pelo mais recente: os mulçumanos. Eles pensam que o Alcorão [Do ár. al-qurAYn, 'o que deve ser lido.] é anterior à criação, anterior à língua árabe; é um dos atributos de Deus, não é uma obra de Deus, é como se fosse sua misericórdia ou sua justiça. No Alcorão se fala de uma forma muito estranha do livro original. Este livro é um exemplar do Alcorão escrito no céu. Talvez venha a ser o arquétipo ideal de Platão do Alcorão, e este mesmo livro, nos diz o Alcorão, que está escrito no céu, que é o atributo de Deus e anterior à criação. Assim nos dizem os suleimans, os doutores muçulmanos.
Temos outros exemplos mais próximos de nós: A Bíblia, ou mais precisamente o Tora ou o Pentateuco. Acredita-se que estes livros foram ditados pelo Espírito Santo. Isto é um fato interessante: atribuir a livros de diversos autores e épocas diferentes a um único espírito, porém a própria Bíblia diz que o Espírito sopra de onde quer. Os hebreus tiveram a idéia de juntar obras literárias de diversas épocas e formar com elas um único livro, cujo título é Tora,ou Bíblia em Grego. A todos estes livros atribuem a um único autor: O Espírito A Bernard Shaw perguntaram uma vez se acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito. Eu acrescento: Todo livro que vale a pena ser relido foi escrito pelo Espírito.
Vale dizer, um livro tem que ir além da intenção de seu autor. A intenção do autor é uma pobre coisa humana, falível, porém o livro tem que ir além. Don Quijote por exemplo, é mais do que uma sátira aos livros de cavalaria. É um texto absoluto em que nada é improvisado.
Pensemos nas consequências desta idéia. Por exemplo se digo:
Correntes águas, puras, cristalinas,
árvores que estais refletindo nelas
verde prado, cheio de frescas sombras.
É evidente que os três versos são de onze sílabas. Foi proposta pelo autor, assim o quis.. Porém o que é isto comparado com uma obra escrita pelo Espírito, o que é isto comparado com o conceito de Divindade, que se curva frente à literatura e dita um livro. Neste livro nada poderia ser ao acaso, tudo teria que estar justificado, letra a letra. Entende-se, por exemplo que o início da Bíblia: Bereshit bara Elohim, começa com a letra B, porque isto corresponde a bendizer. Trata-se de um livro em que nada é ao acaso, absolutamente nada. Isto nos leva à Cabala, nos leva ao estudo das letras de um livro sagrado ditado por uma divindade, que vem a ser o contrário do que pensavam os antigos. Estes pensavam na musa de um modo bastante vago. "Canta, musa, a cólera de Aquiles" diz Homero no princípio da Ilíada. A musa tem, aqui, o seu correspondente à inspiração. Por outro lado pensar no Espírito é pensar em coisa mais concreta, mais forte: Deus, que nos condescende a literatura. É Deus que escreve um livro; e neste livro nada é ao acaso, nem o número de letras nem a quantidade de sílabas de cada versículo, nem o fato de que possamos fazer jogos de palavras com as letras, de que possamos considerar o valor numérico das letras. Tudo foi previsto.
O segundo grande conceito dos livros - repito - é que ele pode ser uma obra divina. Talvez isto esteja mais próximo daquilo que agora sentimos do que da idéia que os antigos tinham dos livros, quer dizer, o livro é um mero sucedâneo da palavra oral.
Logo que cai a crença do livro sagrado ela é substituída por outras crenças. Por exemplo a de que cada país está representado por um livro. Recordemos que os mulçumanos dominam aos judeus, o povo do livro; recordemos a frase de Heinrich Heine sobre uma nação cuja pátria era um livro: a Biblia dos judeus. Temos então um novo conceito, o de que cada país tem pode ser representado por um livro, ou ao menos por um autor, que pode ser autor de muitos livros. É curioso, não creio que isto tenha sido observado antes, que os países elejam para seus representantes autores que não se parecem com eles. Alguém poderia pensar, por exemplo, que a Inglaterra poderia escolher Doutor Johnson como seu representante. Porém não! A Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é, digamos assim, o menos inglês dos escritores ingleses. O típico da Inglaterra é o Understatement, que significa dizer um pouco menos sobre as coisas.
Ao contrário, Shakespeare tendia à hipérbole na metáfora e não nos surpreenderia que Shakespeare tivesse sido, por exemplo, italiano ou judeu. Outro caso é o da Alemanha. Um país admirável, tão facilmente fanático, que elege precisamente um homem tolerante, que não é fanático, e a quem o conceito de pátria não é demasiadamente importante, elege Goethe. A Alemanha é representada por Goethe.
Na França não se elege um autor, porém temos Victor Hugo. Desde logo, sinto uma grande admiração por Hugo, porém Hugo não é típicamente francês. Hugo é estrangeiro na França, com este estilo decorativo, com estas vastas metáforas, não é típico da França.
Outro caso ainda mais curioso é o da Espanha. A Espanha poderia ter sido representada por Lope, Calderón, por Quevedo, porém a Espanha é representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, porém é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes nem os vícios espanhóis. É como se cada país pensasse ser representado por alguém diferente dele mesmo, por alguém que possa ser, um pouco, uma espécie de remédio, uma espécie de "triaca" , um antídoto contra seus defeitos.
Nós, os argentinos, poderíamos ter escolhido Facundo de Sarmiento, que é nosso livro, porém não; nós com nossa história militar, nossa história de espada, elegemos como livro a crônica de um desertor, elegemos el Martín Fierro, que bem merece ser eleito como livro. Como pensar que nossa história está representada por um desertor da conquista do deserto? Porém, assim é, como se cada país sentisse esta necessidade. Vários escritores escreveram de modo brilhante sobre os livros. Quero referir-me a uns poucos. Primeiro me concentrarei em Montaigne, que dedica um de seus ensaios ao livro.
Neste ensaio tem uma frase memorável: Não faço nada sem alegria. Montaigne mostra que o conceito de leitura obrigatória é um conceito falso. Diz que ao encontrar uma passagem difícil em um livro, deixa-o: porque vê na leitura uma forma de felicidade. Recordo-me que há muitos anos realizou-se uma pesquisa sobre o que é a pintura. Perguntaram à minha irmã Norah e ela respondeu que a pintura é a arte de mostrar com alegria as formas e as cores. Eu diria que a literatura também é uma forma de alegria. Se lemos alguma coisa com dificuldade, o autor fracassou. Por isto considero que um escritor como Joyce essencialmente fracassou, porque sua obra requer esforço para ser lida. Uma leitura, um livro, não deve demandar esforços pois a felicidade não demanda sacrifícios. Penso que Montaigne está certo. Montaigne enumera os livros de que gosta. Citando Virgílio, ele diz preferir as Geórgicas à Eneida porém isto não é importante.
Montaigne fala dos livros com paixão, diz que, embora os livros sejam uma forma de felicidade, são contudo um lânguido prazer. Emerson o contradiz. Eis um outro grande trabalho sobre o livro. Nesta conferência Emerson diz que uma biblioteca é uma espécie de salão mágico. Neste salão estão presos os melhores espíritos da humanidade, porém esperam nossa palavra para sair de sua mudez.
Temos que abrir os livros e então eles despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade já produziu, porém que os evitamos e preferimos ler comentários e críticas e não o que dizem os originais.
Emerson diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade já produziu, porém que os evitamos e preferimos ler comentários e críticas e não o que dizem os originais. Fui professor de literatura inglesa durante vinte anos, na Faculdad de Filosofia y Letras de la Universidad de Buenos Aires. Sempre digo aos meus alunos que tenham pouca bibliografia, que não leiam as críticas, que leiam diretamente os livros. Talvez entendam pouco, porém sempre terão o gozo de ouvir a voz de alguém. Eu diria que o mais importante de um autor é sua entonação, o mais importante de um livro é a voz do autor, esta voz que chega até nós. Dediquei parte de minha vida às letras, e creio que a leitura é uma forma de felicidade. Outra forma de felicidade menor é a criação poética, ou aquilo a que chamamos de criação, que é uma mistura de esquecimento e lembrança do que lemos. Emerson concorda com Montaigne sobre o fato de que devemos ler somente aquilo que nos agrada e que um livro tem que ser uma forma de felicidade. Devemos tanto às letras. Eu procuro mais reler do que ler. Creio que reler é mais importante, embora para se reler seja necessário ter lido uma primeira vez.
Eu tenho este culto ao livro. Posso dizê-lo de um modo tolo e não quero ser tolo, quero que seja uma confidência que faça a cada um de vocês, não a todos, porém a cada um, pois todos é uma abstração e cada um é concreto. Continuo achando que não sou cego pois prossigo comprando livros e enchendo minha casa deles. Outro dia presentearam-me com uma edição de 1966 da Enzyklopadie Brockhaus e eu senti a presença deste livro em minha casa, senti-a como uma forma de felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e gravuras que não posso ver e, apesar disto, o livro estava ali. Eu o sentia como uma atração amistosa. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, humanos, temos.
Dizem que o livro desaparecerá, eu creio que é impossível. Perguntam: que diferença pode haver entre um livro e uma revista ou um disco? A diferença é que uma revista é para ser lida e esquecida, um disco se ouve, e mesmo assim, para o esquecimento, é uma coisa mecânica e portanto frívola. Um livro se lê para a memória. O conceito de livro sagrado, do Alcorão, da Bíblia e dos Vedas - onde também se diz que os Vedas criaram o mundo - pode estar ultrapassado, porém o livro tem uma espécie de santidade que devemos cuidar para que não se perca. Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. Quais são as palavras inseridas no livro? O que são estes símbolos mortos? É simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas. Porém se o lermos ocorre uma coisa rara, creio que ele muda a cada momento. Heráclito disse (e tenho repetido isto em demasia) que nada se banha duas vezes no mesmo rio. Nada se baixa duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam porém, o mais terrível, é que nós mesmos não somos menos fluídos que um rio.
Cada vez que lemos um livro, o livro se modifica, a conotação das palavras é outra. Além disto, os livros estão carregados de passado. Tenho falado contra a crítica e vou aqui ser contraditório (porém o que me importa ser contraditório). Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século 17. Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley. O mesmo se passa com o Quijote. Igual se sucede com Lugones e Martínez Estrada, o Martin Fierro já não é o mesmo. Os leitores acabam enriquecendo o livro. Se lemos um livro antigo, é como se o tivéssemos lido durante todo o tempo transcorrido entre o dia que foi escrito e o nosso tempo. Por isto convém manter o culto ao livro. O livro pode estar cheio de erratas, podemos não concordar com as opiniões do autor, porém ele conserva algo de sagrado, de divino, não de modo supersticioso, mas com o desejo de encontrar a felicidade, de encontrar a sabedoria. Isto é o que queria dizer-lhes hoje.

Buenos Aires, 24/05/1978

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O homem que roubava almas

maggie taylor


"A realidade é como os pássaros azuis de Maeterlinck, que perdem sua cor na gaiola"
Robert Avens


As crianças levaram para escola, além dos livros e da merenda, baldes, escovas, sabão e panos para lavar os assoalhos e as janelas do salão da escola, que funcionava também como Centro Comunitário. O forasteiro era branco, branquinho, usava calça justa, como a pele que as cobras abandonam nos matos, a salientar os pequenos colhões, pequeninos, e tinha ombros espremidos.  Chegou com pouca bagagem e uma obscura gaiola, que apoiou sobre um tripé. O dia festivo acontecia uma vez por mês, quando o padre vinha rezar a missa na vila e toda vizinhança aparecia para assistir. Enquanto fazia o sermão e de acordo com o que dizia, uma voz ou outra se destacava. Muito bem. Estou de acordo. Apresentou o visitante que iniciou um discurso comprido, sempre no mesmo tom, a exalar  repolho cozido da boca e eu, eu, eu. Volta e meia os moradores olhavam para o orador. Muito bem. E tornavam, safando-se do bafo, a erguer os narizes para as grandes janelas,  que davam para infinita planície, distraídos ao palavreado pedante e arrastado. As mulheres apontavam para as flores, as mais lindas: copos de leite, lírios de páscoa, rosas, bocas de leão, tão belas. Enquanto se estendiam por tudo o que os rodeava― no latido dos cães da estrada, no gosto dos araçás, mais o colhãozinho egóico se espremia em cada letra duma literatice sem o alto ou o baixo, sem o grito ou o sussurro, uma linha reta. Boom! Um estouro, a recolher as gentes dos campos, de cima da goiabeira, das flores. Todos riram de susto. O homem deu uma volta entre eles, a lhes mostrar a si mesmos num espelho mágico― os narizes se estendendo no cheiro das ervas, nas bostas das vacas. Então, matéria prima, as raparigas esfregaram papel crepom nos lábios e faces, sem necessidade, porque eram coradas, devido ao sol na lavoura, robustas e sadias― boom! Os traços do homem que saiam debaixo do pano não eram moles como o movimento dos riachos. Na frente de todos, colocou os retratos numa caixinha apertada, ansioso por direitos de autor e propriedade sobre tudo que se expandia.   Põe-te ali, disse ele com bafo de repolho, a magoar com dedos encarquilhados o braço da soprano que pertencia ao coral da vila. Ladrão! ― ela gritou. E o homem correu como pode, absolvendo forçadamente as almas que se espalharam no pampa. Muito bem.

(Santa Sede- Oficina de Crônicas em Boteco, ministrada pelo escritor Rubem Penz)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

"ela viu", "ela observou"

é melhor que sejam suprimidas numa narrativa literária em favor da apresentação direta da coisa vista.

A arte da ficção, de John Gardner

Escrever em primeira pessoa

Lágrimas no papel/teatro

A primeira pessoa encerra-nos dentro da mente de um dos personagens, prende-nos a uma só espécie de elocução de ponta a ponta, deixando de fora a possibilidade de penetrar mais fundo na mente dos demais personagens, e assim por diante. O que se chama às vezes de ponto de vista limitado da terceira pessoa, subjetivo da terceira pessoa ou ainda narrador onisciente seletivo é o mesmo da primeira pessoa com o eu mudado em ela ou fulano. Segundo Gardner, o tradicional ponto de vista da terceira-pessoa-onisciente no qual a história é contada por um narrador anônimo (uma persona do autor), que pode mergulhar na mente e nos pensamentos de qualquer dos personagens, embora se concentre em não mais do que dois ou três, dá ao escritor maior amplitude e liberdade.

Excerto de A arte da Ficção, de  John Gardner

domingo, 11 de abril de 2010

O artista escritor

kafka


A revelação do artista por ele mesmo é o seu estilo, não só na escolha das palavras e locuções, ritmo da frase, maneira de construir parágrafos (ou liquidar com a idéia de frase, sentença, parágrafo), mas também seu estilo em selecionar pormenores da realidade ou do sonho. Dois artistas não revelam exatamente o mesmo mundo, o que cada um emoldura é realmente o que existe lá fora ou a partir de situações interiores. 
O processo de trabalho acaba por levá-lo ao objetivo - como se o dito processo tivesse algum elemento de mágica, uma vontade demoníaca própria- todo bom escritor passa por esta experiência. Lidamos com elementos, todas as discretas partículas com as quais se constrói uma história, intuitivamente: partículas da ação (idéias-eventos), partículas para compor personagens, como obesidade - e o que ela implica- avareza ou letargia, partículas que servem para criar cenários ou atmosferas. Cada elemento, tomado separadamente, é limitado, mas em justaposição tornam-se significativos- unidades mais altas de pensamento poético. O que os escritores descobrem são novas combinações.

Excertos de A arte da Ficção, de John Gardner

A sanidade do escritor


John Gardner diz que por mais estúpido que seja na vida privada, jamais trapaceia quando escreve. E, Stephen Dedalus, citado por Gardner, que nosso sentimento de mundo, mesmo quando contém elementos fabulosos, é, no fundo, fiel à realidade.

sábado, 10 de abril de 2010

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás

As formigas estão carregando aqui de casa, através das galerias, até o depósito do formigueiro, ambiente distinto ao viveiro das larvas, abelhas mortas, Trakinas, Nissim-q-nojo, carne e ração dos cães e da gata. Há até cemitérios na colônia, para onde provavelmente as operárias recolhem as que trucido. Outro dia dei falta do rímel e de um pé de sandália, desconfio que estejam levando também meus pertences para vedar o formigueiro nesses dias de chuva ou então mantêm nicho especializado em produções femininas, mesmo as estéreis operárias, que, puta-que-pariu, devem ter alguma hora de lazer.   



Ao final das escavações, encontraram minha sandália, a embalagem do rímel vazia, meu LP do Wando, o drama satírico Proteu, do Ésquilo, na íntegra, os guarda-chuvas da minha avó e dois esqueletos de dois milhões de anos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A mais revolucionária mágica de todos os tempos

lux vidal


Tenho uma relação não resolvida com a fotografia. Iniciei o curso na Escola Artística do Porto Árvore, em Portugal, e não pude dar continuidade devido ao trabalho. Depois, de volta ao Brasil, iniciei na Ulbra, entretanto, todos meus colegas tinham máquina digital e eu uma analógica (Pratika LTL3). Agora tenho a grana para comprar uma Nikon D40 e estou numa alegria bem grande, como quando era pequena e escolhi, entre um relógio e uma boneca, a Pepita, que tomava mamadeira e fazia xixi. Ia diariamente à loja de brinquedos para vê-la e sentir o cheiro plástico de nova- até o dia do meu aniversário. A fotografia está em tudo em nossas vidas, milhões de pessoas registram diariamente, sem maiores pretensões,  amigos, viagens, familiares, conquistas pessoais: trilegal.

terça-feira, 6 de abril de 2010

"Chama-se poesia tudo aquilo que fecha a porta aos imbecis"

leonora carrington

Conforme Aldo Pellegrini, a poesia tem uma porta hermeticamente fechada aos imbecis, mas aberta de par em par aos inocentes. Imbecilidade é oposto à inocência. O imbecil tem paranóia pela ordem de poder, e o inocente, nega-se a exercer o poder porque possui todos. O poder move o primeiro, e o amor o segundo. A poesia significa liberdade, a afirmação da autenticidade humana, do homem que tenta realizar-se- isto dá um certo prestígio ante os imbecis. A poesia opõe-se à vontade de não ser que guia a multidões domesticadas. A poesia é uma mística da realidade. O poeta busca na palavra não um modo de expressar-se, mas um modo de participar da própria realidade. A poesia pretende cumprir a tarefa de que este mundo não seja habitável somente para imbecis.

Excertos de Surrealismo e o Novo Mundo, editora UFRGS

sábado, 3 de abril de 2010

Diálogos do amor




Catarina Helena deita-se na cama. Acende a luz do abajur e coloca sobre o criado-mudo uma xícara de chá. Lê, enquanto Augusto está na sala a terminar um trabalho. O livro trata sobre Adão Bíblico, andrógino cabeludo, bifronte. Esse primeiro homem sintetiza o todo, da fêmea e do macho, do alto e do baixo, do Grêmio e do Colorado.
Que esta androginia possa ser lida em sentido psíquico, é outra variante, já que a primeira mulher nasceu logo após Adão. Estava lá, naturalmente pelada, predestinada a ser inferior. Poderia acontecer do tanso não reconhecê-la até hoje, a brincar com o próprio rabo, se não lhe fosse extraído. Mas viu deliciosas orgias da vaca com o boi, da gazela com o gazele, no Éden, e sentiu-se insatisfeito.
Augusto levanta a coberta e deita-se, oferecendo-lhe o peito. A vó de Catarina Helena diz que as mulheres devem dormir como vieram ao mundo.
Diálogo como manifestação de necessidade
− Tás com sono? − pergunta Augusto.
A tragédia do conhecimento carnal está prestes a acontecer. Augusto chega-se à Catarina Helena, que lhe sente o cheiro, a pele, os pêlos. Ele beija-lhe o pescoço, os mamilos eretos, passa a língua ao lado do dorso, próximo ao sovaco...
Diálogo incompleto
− Aí meu Deus..aí, não, aí não...hahahaha....faz cócegas..hahahaha
Augusto retoma noutro ponto, acariciando-lhe as coxas, beijando-lhe as costas, a boca. Precipita-se para cima do corpo feito de carne, sangue e saliva.
Diálogo como exercício de poder
− Quero ficar por cima − diz, conduzindo-o de volta para o travesseiro dele.
Diálogo em situação inferior e reiterativo
− Queres mesmo ficar por cima?
Sentada sobre ele, curva-se para encostar língua e lábios no corpo macio, no peito que a aconchega. Desce, desce mais, até Augusto, sufocado, escancarar uma gargalhada.
Diálogo inútil
− Qual é a graça?
Diálogo Indiferenciado
− Lembrei do Roberto Carlos: Vou cavalgar por toda noite, por uma estrada colorida − desafina. − Usar meus beijos como açoite, e a minha mão mais atrevida.
Diálogo empolado, excessivamente literário e extenso
− Cantas como Josefina – diz Catarina Helena. − A posição é invertida, visando o estabelecimento da igualdade entre homem e mulher. − Esforça-se pela entonação adequada, resvalando para frente e para trás no sexo dele. − Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.
Diálogo impossível e interrompido por evento externo
− Este discurso desafia o homem, ou seja, a Deus − retruca, com Catarina Helena a encaixar-se nele. − A mulher deve suportar o corpo do...
Diálogo legítimo, de dentro, e ambíguo
− Tá gostoso? − ela sabe, que ele sabe, que ela sabe, que está gostoso.
− Espera morzinho...− diz, com respiração ofegante, provocada pelo crescente movimento do subir e descer do corpo de Catarina Helena.
Chegam ao orgasmo repleto de reticências e exclamações bagaceiras.
Vão em pecado até o amanhecer. Catarina Helena é aquela, que perturba o sono de Augusto.

A putaria da Igreja Católica

La religieuse Jacques Rivette

Diz-se que a Igreja Caólica proibe o matrimônio dos padres para não correr o risco de perder a fortuna que acumula. Só no Basil, a Igreja Católica Apostólica Latifundiária tem cerca de dez mil imóveis rurais- mais ou menos 260 mil hectares de terra. E, agora o Papa pede perdão para padres comedores de crianças. São 120 casos relatados, tendo em vista, que a maioria mesmo nem chega ao conhecimento da opinião pública. Os meninos-cantores da catedral de Regensburgo (Ratisbona) sofriam abusos dos padres que os educavam, entre 1958 a 1973, dirigido, de 1964 a 1994, pelo padre Georg Ratzinger, irmão do Bento. E, a putaria não é de hoje, é só ler A Religiosa do Diderot, publicado em 1796. Quando eu tinha nove anos e estudava num colégio de freiras no interior do estado, certa vez acordei cedo demais, ainda havia cerração, e sentei-me em frente à escola, a esperar. Vi uma das irmãs, que era a professora de religião, abrir a porta para o padre sair sorrateiro. Durante a aula, a irmã discursou, mais para mim que para a turma, que elas também precisavam de carinho e por aí.  Logo largou o celibatário, e o padre foi transferido. Sou a favor da putaria (não a neurótica- da prostituição, da pedofilia, do masoquismo, das relações superficiais) e totalmente de acordo com os escritos de Wilhelm Reich- todos têm que ter seus instintos de fome e sexo satisfeitos, a coibição disto é que gera as depravações, o horror do abuso, a vergonha do amor, como sentiu a irmã que foi minha professora.

Celtas e maçons



O povo celta era uma sociedade matriarcal e de religião politeísta- adoravam a Mãe Terra e o Pã- um Deus que tinha cornos e que abraçava os bosques. Eram nômades e se espalharam por toda a Europa, inclusive região da Galiza, que é hoje Portugal. Entre eles havia os bruxos e feiticeiras- druístas e wiccas. Seus cultos eram realizados ao ar livre. Amantes da natureza, acreditavam que a transcendência espiritual era algo individual. Vê bem: as mulheres eram guerreiras, escolhiam seus maridos e, em um ano, poderiam renovar ou não a união. Este povo, a pretexto de sua religião, foi perseguido e aniquilado pela Igreja Católica Romana- uma população inteira no sul da França foi dizimada- adultos e crianças. Logo depois, veio a Inquisição com sua barbaria. O tarô teve origem exatamente neste local.
César foi um dos grandes responsáveis por denegrir a atuação dos druístas, bem como perseguí-los. A maçonaria, devidamente reconhecida pela Igreja Católica, absorveu muito desta cultura religiosa. À pretexto de salvaguardar Jerusalém, convocava iniciantes. Só que lá, ao invés de fazerem treinamentos de guerra, realizavam altas meditações à quatro paredes. A Maçonaria movimentava muito dinheiro, emprestando inclusive, para o Rei da França. Depois veio o Felipe IV que queria colocar a mão na grana, acusando-a de herege. A Instituição foi dissolvida na França, e muitos viraram churrasquinho. 

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Pés

Sempre tenho sonhos em que encontro ou escolho sapatos. De saltos altos ou tão baixos que magoam a planta dos meus pés, a sentir os pedregulhos. Simbolicamente eles dizem sobre nossa forma de contato com a realidade por serem nossa base na terra.  


pés de lótus
magritte

Cria teu e-book!

Bibliografias

Bibliografia Núcleo de Dramatugia SESI SP

POÉTICA
Aristóteles (há várias traduções possíveis).
A EXPERIÊNCIA VIVA DO TEATRO
Eric Bentley – Coleção Palco e Tela
Zahar Editores, 1981
O DRAMATURGO COMO PENSADOR
Eric Bentley - Editora Civilização Brasileira, 1991
TEATRO GREGO – TRAGÉDIA E COMÉDIA
Junito de Souza Brandão - Vozes, 1984
PARA TRÁS E PARA FRENTE – UM GUIA PARA LEITURA DE PEÇAS
TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
DICIONÁRIO DE TEATRO
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
A ANÁLISE DOS ESPETÁCULOS
Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
MITO E REALIDADE
Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
TRAGÉDIA MODERNA
Raymond Williams - Ed. Cosac & Naify, 2002
PROBLEMAS DA POÉTICA DE DOSTOIÉVSKI
Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
O TEATRO ÉPICO
Anatol Rosenfeld - COLEÇÃO DEBATES – Editora Perspectiva, 1985
O TEATRO BRASILEIRO MODERNO
Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
Hans-Thies Lehmann - Ed. Cosac & Naify, 2007
O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




Psicologia junguiana
EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989
HILLMAN, James. Estudos de Psicologia arquetípica, RJ, Achiamé, 1981
JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado na Obra de C. G. Jung, SP, Cultrix, 1989
JUNG, Carl Gustav. Obras Completas, Petrópolis, Vozes
JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos, RJ, Nova Fronteira, 1964
JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961
NEUMANN, Erich. História da Origem da Consciência, SP, Cultrix, 1990
SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente, RJ, Alambra, 1981
VON FRANZ, Marie-Louise, C.G.Jung, Seu Mito em Nossa Época, SP, Cultrix, 1992
WHITMONT, Edward C. A Busca do Símbolo, SP, Cultrix, 1994
ZWEIG, Connie, e ABRAMS, Jeremiah.(organizadores). Ao Encontro da Sombra, SP, Cultrix, 1994
HILLMAN, James. O Código do Ser, RJ, Objetiva, 1997
MINDELL, Arnold, O Corpo Onírico, SP, Summus, 1989
NEUMANN, Erich. A Criança, SP, Cultrix, 1991
SAMUELS, Andrew e Colaboradores. Dicionário Crítico de Análise Junguiana, R J, Imago, 1988
SHARP, D. Tipos de personalidade, SP, Cultrix, 1990
VON FRANZ, M. L. & HILLMAN, J. A tipologia de Jung, SP, Cultrix, 1990
BOLEN, Jean Shinoda. A Sincronicidade e o Tao, SP, Cultrix, 1991
CLARKE, J. J. Em Busca de Jung, RJ, Ediouro, 1993
FRANZ, Marie-Louise von. Adivinhação e sincronicidade, SP, Cultrix, 1985
HILLMAN, James. Suicídio e alma, Petrópolis, Vozes, 1993
HILLMAN, James. Uma busca interior em psicologia e religião, SP, Paulinas, 1985
PROGROFF, Ira. Jung, Sincronicidade e destino humano, SP, Cultrix, 1989
Tuiavii. O Papalagui, SP, Marco Zero. 1987
GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978
SANFORD, J. Os Parceiros Invisíveis, SP, Paulus, 1986
STEIN, Robert. Incesto e amor humano, SP, Símbolo, 1978
STEINBVERG, Warren. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana, SP, Cultrix, 1992
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega, Petrópolis, Vozes, 1989
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito, SP, Palas Athena, 1990
FIERZ, Heinrich Karl. Psiquiatria junguiana, SP, Paulus, 1997
HILLMAN, J. O mito da análise, RJ, Paz e Terra, 1984
KERÉNYI, Karl. Os Deuses Gregos/Os Heróis Gregos, SP, Cultrix, 1994
SALAND, N. S. A Personalidade limítrofe, SP, Cultrix, 1989
VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma, SP, Cultrix, 1992
SAMUELS, Andrew. Jung e os Pós-Junguianos, RJ, Imago, 1989
SANFORD, John. Os sonhos e a cura da alma. SP, Paulinas, 1991
WHITMONT, Edward e S. Pereira. Sonhos um portal para a fonte,SP, Summus, 1995
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico, SP, Cortez, 2000
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, SP, Ática, 1995
Brandão, Junito de Souza (1998). Mitologia Grega –– Petrópolis: Ed. Vozes, 1998, vol 2, pp. 113-140.
Byington, Carlos A.B. (2008). Psicologia Simbólica Junguiana – São Paulo: Ed. Linear B, 2008, capítulos 1, 2, 3 e 4.

Real é o que produz efeitos, Carl Jung

Solicita teu exemplar! Participo com 3 contos.

Solicita teu exemplar! Participo com 3 contos.
Interessados entrem em contato comigo pelo e-mail lucianegodinho@ig.com.br O valor é 25, despacho pelo Correio sem custo adicional

Pesquisar este blog