quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

“Professora, eu sei ler! Eu sei ler!”,



gritou a Alzira de Moura Mancilia para a professora Francinele Ávila, na biblioteca da Escola Martha Pereira Barbosa, onde as aulas acontecem às quintas-feiras, e de segunda à quarta numa sala ao lado da Casa de Cultura. Alzira, filha única, e casada com o pescador Oscar não teve a oportunidade de seguir os estudos quando menina, porque os pais eram pequenos produtores rurais. “Eu era alfabetizada, mas tinha me esquecido”, disse. “A professora nos dá muita atenção, e peguei rápido”. A maior alegria dela agora é ler as mensagens no celular sozinha, sem ninguém ajudar. A lição de casa ela faz junto com a Nina Rosa de Castro Freitas, vizinha e mãe do genro dela. O projeto de alfabetização é desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação nos moldes do Pescando Letras do governo federal.


Alzira

Elizabeth de Castro da Rosa, 57, já havia freqüentado algumas aulas de outro curso de alfabetização, organizado pela Secretaria que foi interrompido. Sempre teve vontade de estudar, mas como foi criada na beira de praias- já que acompanhava a rotina de pesca dos pais e depois do marido- o que acontece com a maioria das mulheres- não teve condições de freqüentar uma escola regular. “Via as pessoas dizerem tal livro é lindo”, conta, “e não podia ler ou saber o que tinha nele”. “Agora eu posso ler romances”. Todos os filhos dela são alfabetizados: “Quis dar o que não tive: as palavras”.

A mãe de Beth, dona Dora, 71, moradora da Vila há 30 anos, também freqüenta o curso de alfabetização, embora tenha dado uma parada agora para cuidar do marido que caiu doente. Os pais lhe tiraram da escola aos 13 anos para ajudar na pescaria. Sempre trabalhou como pescadora e o marido, hoje com 82 anos, também desenvolvia a atividade. Escamava peixes, salgava, e “empilhava tudo ao sol”, relembra. Também consertava e fazia redes de pesca. “Eu não tinha casa, fui criada em barracas nas praias”, diz. Ela nasceu no meio da lagoa, na Ilha do Canal Novo em Rio Grande, “no meio do peixe”, ri satisfeita.

Nina Freitas, 43, moradora da Vila há 27 anos, mãe de três filhos, todos alfabetizados, também foi criada na praia e agora lê o quer nas lojas, cemitério, revistas, mensagens do celular, “só não leio cobrança”, diz, sempre brincalhona. “A professora teve na Vila convidando, e eu sempre quis estudar”, diz. Ano que vem, a turma de oito alunos inicia o sistema de supletivo e tanto Nina como as outras receberão o certificado do curso de alfabetização. Nina irá, então, para o nível de 2º série.

“Meus parentes acham graça por eu estar com caderno na mão lendo as letras”, diz dona Maria Guilhermina Bonnemberg. Mas graça ela não achava quando ia ao mercado e, por não saber ler, trazia alimentos fora da validade ou leite light que não gosta. “Ficava brava, não comia”, conta. Andou internada por problemas cardiovasculares e, lá no hospital, leu muito jornal, revistas de novela e todas as placas indicativas que via pela frente. O filho adotivo dela, o Fabiano, de 12 anos, está na sexta série e a ajuda na lição. Ela adora pintar o livro escolar e é boa nisso, garante a professora Francilene. A mãe da dona Maria morreu quando ela tinha nove anos e acabou criando onze irmãos, além de ter que cozinhar para os empregados do pai, que era plantador de arroz, impossibilitando que freqüentasse a escola. Ela tem quatro filhos todos casados e alfabetizados.

Juliana Mancilia De Oliveira, 19 anos, que vai fazer o EJA no ano que vem, começou a freqüentar o curso para acompanhar a mãe Alzira e a sogra Nina, e acabou sendo instrutora. É esposa do pescador André com quem se casou ao completar 15 anos. “Antes, elas olhavam e não tinham vontade de ler”, diz. A mãe dela e a sogra- inseparáveis, agora brigam por causa das palavras, quando uma se adianta na leitura da outra. “Se vão para o centro, voltam pelas cinco, seis horas, a lerem tudo que vêem pela frente”. Ela conta ainda que o colégio é o principal para elas, colocando-o em primeiro lugar frente às outras atividades.

Um dos motivos que fizeram o pescador João Eva Ribeiro da Rosa desistir foi a necessidade de óculos, mas ele garante que retornará. A Prefeitura fez doação para um dos alunos e para os demais- cinco deles, a turma está promovendo rifa de uma colcha com ponto de rede, confeccionada pela colega Beth.

Eles se formaram no curso de alfabetização em 22 de dezembro. Uma cerimônia merecida, segundo a professora Francilene, porque a maioria apenas sabia desenhar o nome e em seis meses estão alfabetizados, lendo tudo. “Há muito esforço deles”, diz, “não é milagre meu”. Entre eles, está Luzia Matilde de Almeida Jesus, 73, cuja matrícula foi o marido quem fez. No primeiro dia de aula, quando todas foram convidadas a manifestar suas expectativas e o motivo de estarem ali disse: “Meu sonho é escrever um bilhete para o meu amor”.




Maria Guilhermina parou de estudar ainda menina para criar os irmãos e cozinhar para os empregados do pai






O marido de dona Dora e pai da formanda Elizabeth, o seu José Alcides de Castro, faleceu um dia antes da formatura, aos 82 – uma vida de sacrifícios e bem vividos anos como pai, marido e pescador

Publicada no Regional de Notícias - Tapes/RS
Texto e fotografia Luciane Godinho

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TEATRAIS
David Ball – Coleção Debates - Ed. Perspectiva, 1999
LER O TEATRO CONTEMPORÂNEO
Jean-Pierre Ryngaert – Ed. Martins Fontes, 1998
TRÊS USOS DA FACA – SOBRE A NATUREZA E A FINALIDADE DO DRAMA
David Mamet - Ed. Civilização Brasileira, 2001
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Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 1999
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Patrice Pavis – Ed. Perspectiva, 2005
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Mircea Eliade - Coleção Debates, Editora Perspectiva, 1972
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Mikhail Bakhtin - Forense Universitária,1997
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Décio de Almeida Prado – COLEÇÃO DEBATES - Ed. Perspectiva, 1988
O TEXTO NO TEATRO
Sabato Magaldi – Ed. Perspectiva, 2001
TEORIA DO DRAMA MODERNO [1880-1950]
Peter Szondi – Cosac & Naify, 2001
TEATRO PÓS-DRAMÁTICO
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O RISO – ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DO CÔMICO
Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
WRITING A PLAY
Gooch, Steve - A & C Black Publishers Limited. 2004
PlAYWRITING
Greig, Noel - Routledge, USA, 2005




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