quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Vila dos Pescadores de Tapes: vidas anfíbias

Texto e fotografia: Luciane Godinho




A pesca é o elemento fundamental para compreensão do modo de vida desses moradores. Grande parte do tempo estão dentro da Laguna e é em função dela que organizam sua vida social. Eles estão sintonizados aos ritmos da natureza e amparados pelo saber tradicional. Partem para modernizações como o uso de GPS, máquina de fabricação de gelo, entre outros, mas a vida lhes exige o corpo como força de trabalho





Cerca de 90 famílias de pescadores vivem na Vila




Embarcações ancoradas na foz da sanga dos Charqueadas




Os conhecimentos são repassados de pai para filho



A Vila dos Pescadores de Tapes está situada à beira da foz da sanga dos Charqueadas e Laguna dos Patos. São cerca de 90 famílias que vivem e se organizam da atividade artesanal pesqueira, baseada no saber tradicional- passado de pai para filho, que envolve desde a confecção e reparo das redes até técnicas específicas de pesca. “O nó que começa a rede não pode correr”, diz Nina Rosa Beléia. O segredo da rede é dar dois bem fortes, por baixo do dedo- caso contrário escapa. “Se o nó corre, a rede fica toda corrida”, adverte. “Aí a gente pega as orelhas dela” brinca o marido Reginaldo José de Castro, 56 anos. A rede se corrida fica toda aleijada, não forra as malhas e o peixe escapa. “Quantas vezes nós comíamos da rede né mãe?”, diz Nina. A mãe comprava a linha e levava para elas fazerem. O nó tem que ficar bem encostado à malheira para não frouxar. Se o nó for bem feito, é difícil se desmanchar. “Se fizer uma rede corrida, é uma só”, diz Reginaldo, “ninguém mais dá serviço”. O que determina o tamanho da malha é o quadrado que se chama malheira, aonde a rede é trabalhada com a agulha. Para se fazer uma rede de 22 metros são necessários cerca de quatro novelos de 250 gramas. Se a malha for miúda, rende mais no comprimento.



Nina Rosa: “Quantas vezes nós comíamos da rede né mãe?”




Beth transferiu a técnica de confecção das redes para peças artesanais

Desde pequenas, elas aprendem a fazer ou consertar redes de pesca só de observar os pais. Elizabeth de Castro da Rosa sempre fazia o trabalho com o pai, Alcides José de Castro, e transferiu a técnica para peças artesanais que enfeitam a casa: cortinas, colchas toalhas de mesa, saídas de banho, que variam de R$ 50 a R$ 15 cada. Para dar início ao trabalho, ela prefere gritar por João Eva, pescador desde os oito anos e vizinho, cujos pais também eram pescadores profissionais.

“Fomos criados dentro do barco”, diz. Vida difícil sim, a enfrentar temporais. Mais de uma vez, por exemplo, a embarcação em que João estava teve que devolver os peixes à água para poderem se salvar, “porque o caiaco ia muito carregado”. “Entrava água para dentro”, conta. Mesmo assim garante que não trocaria esta vida por nenhuma outra, porque quem nasce para isto “se não vê água, não tá feliz”. De pescaria não há nada que João não faça- dentro ou fora do barco.

Embora no tempo passado a rotina tenha sido muito mais difícil, ele diz que antigamente pescavam de quatro a cinco mil quilos de peixe por semana e que agora o peixe está escasso. “Por nossa culpa mesmo, culpa das redes arrastão que levam muitos peixes pequenos”, observa. Segundo ele, embora a rede arrastão seja proibida, lá para as bandas de Rio Grande- Arroio Sujo, eles continuam usando. Em época de Piracema- período em que os peixes realizam a desova e a reprodução- sendo beneficiado pelo subsídio, encaminhado pelo governo federal, João exerce a atividade de pintor.


 João Eva na época da Piracema ganha um dinheiro extra como pintor



Pronaf é pela melhoria da vida dos pescadores

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF, do Governo Federal, criado em 1995, atende de forma diferenciada os pescadores artesanais. Através dele, vários pescadores da Vila conseguiram financiamentos para consertos, reformas e aquisição de embarcações ou de equipamentos para desenvolverem suas atividades. “No tempo em que trabalhava com meu pai, não tínhamos essas facilidades de tirar empréstimo”, diz Reginaldo Castro.


Reginaldo é pescador profissional e já fez empréstimo pelo Banco do Brasil

Para ter acesso às linhas de crédito, oferecidas pelo Banco do Brasil, há regras específicas como possuir a DAP- Declaração de Aptidão ao Pronaf, emitida pela Associação ou EMATER. A Unidade de beneficiamento de pescado, criada em Tapes, nasceu a partir do programa Desenvolvimento Regional Sustentável- DRS, do Banco do Brasil, em parceria com a Prefeitura de Tapes, que tem por objetivo o desenvolvimento de comunidades como a Vila, dando acesso ao crédito bancário, entre outros benefícios. Hoje os pescadores têm conta corrente, linhas de financiamento para pessoa física a longos prazos com juros de 2% ao mês, prazos até 10 anos e amortizações anuais. Foi através deste projeto que a Fundação Banco do Brasil participou da compra das máquinas de fabricação de gelo- com capacidades de 2mil e seiscentos quilos e 360 kg/dia, e o caminhão frigorífico.

A mãe de Nina, Nélia de Sá Britto Beléia, viúva, 73 anos, natural de São de São Lourenço do Sul, diz a vida de pescador antigamente era muito mais difícil, porque agora tem direitos e oportunidades garantidos pela legislação. “Antigamente, pescador era cachorro”, diz. A rotina sempre foi esperar o marido voltar da lagoa, tratando da criação dos filhos ou então acompanhá-lo, trabalhando na salga e cozinhando na parelha (embarcação). Na maioria das vezes, o destino era o canal novo de Rio Grande “feito por irmãos e não por Deus, para os navios acessarem a Ilha da Feitoria”, explica Reginaldo, que acampava lá com o pai desde os sete anos, onde compradores se dirigiam para lhes comprar o peixe salgado. Pão torrado e água era a alimentação básica nas viagens, “não tinha fogão de andar e hoje até televisão tem dentro do barco”, diz. “Tem barraquinha ou casinha nos barcos para por a roupa de cama, antes molhava tudo”. Chegavam a dormir sentados em dias chuvosos devido à roupa de cama encharcada, e o chapéu a proteger comida. Se tivesse que voltar ao passado Reginaldo não queria, garante, bem sentado na cadeira de praia, a remendar uma rede, “só se fosse para namorar”, brinca, a provocar Nina com quem é casado há 34 anos. Reginaldo se ausenta, em média, por dez dias. Segundo ele, este ano a safra foi muito ruim- dez, doze dias dentro da lagoa, não chegaram a render R$ 50. Ele atribui o infortúnio às enchentes que foram muitas este ano. “Quando a água da Lagoa seca, entra a salgada de Rio Grande, aí a produção é melhor”, diz. A tainha é o peixe que mais garante ganhos, a ser vendida por R$ 2 o quilo. Se a oferta é grande, o preço baixa para R$ 1,5 ou menos até.



Publicada no Regional de Notícias- Tapes/RS

Um comentário:

  1. Ola gostaria de aprender como se faz redes tipo de voley com aquelas malhas quadradas . Desde ja agradeço a atenção.
    Att Marilio Monteiro
    Vitória E-S

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Henri Bergson – Ed. Zahar, 1983
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